ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Terça-feira, 15 de Agosto de 2006
NEM SÓ EM VERSOS BOCAGE FOI GRANDE !
                                                         BOCAGE  -  O GRANDE TRADUTOR
Carlos Castilho Pais
Universidade Aberta

Acabou há pouco de comemorar-se o bicentenário do falecimento de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). No número anterior, prometemos aos nossos leitores que haveríamos, aqui, de dedicar-nos a um estudo mais aprofundado sobre o poeta/tradutor. Para muitos, será indispensável situar o escritor de forma a que possam continuar a procurar informação, a ler os seus versos. Evidentemente, temos em mente os nossos leitores que vivem no estrangeiro, porventura menos familiarizados com a História da Literatura Portuguesa. Todavia, para todos, ou quase todos, o Bocage tradutor será uma novidade. Daniel Pires, o impulsionador das recentes Comemorações, no texto introdutório ao catálogo da exposição sobre Bocage que a Biblioteca Nacional levou a cabo de 17 de Novembro de 2005 a 28 de Janeiro de 2006, justificando uma perspectiva actual que considera ‘mutiladora e parcial’, escrevia:
Por outro lado, poucos são os estudiosos que estão cientes da actividade de Bocage como tradutor. As suas versões portuguesas de textos clássicos latinos, entre os quais se contam autores como Virgílio e Ovídio, caracterizam-se pelo rigor e pela originalidade. Estes juízos de valor poderão ser também aplicados às suas traduções da língua francesa de escritores que fizeram escola na época, como Voltaire, La Fontaine, Lesage, Florian, Lacroix, d’Arnaud, Dellile e Castel.
A constatação, verdadeira, é, também, paradoxal. Com efeito, Bocage é um nome incontornável da Nova Arcádia (1790-1793) e, no plano social, é uma personagem catalizadora dos movimentos e das mudanças da época. O nome de Bocage é de menção obrigatória quando referimos os ecos da Revolução Francesa (1789) entre nós. A era pós-Pombal em que Bocage viveu fica ilustrada com a passagem do poeta pelos calabouços do Limoeiro (1797) e pela ‘reeducação’ forçada em vários hospícios conventuais lisboetas (convento de S. Bento e Necessidades). Os interrogatórios do Santo Ofício e a passagem pelo Oriente (1789) serão outros tantos episódios de uma vida que terão que assinalar-se, quando o tema for a prolongada agonia do império. Em termos estritamente literários, regista a História, em Bocage, sobretudo o exímio cultivador do soneto, o que é de máxima importância, porque, nessa História, raríssimos são os eleitos. A esta prerrogativa da escrita de Bocage até a censura do Estado Novo se curvava. Mas... se isto não bastasse, aí estavam os nomes do Romantismo Português (Garrett, Herculano, Castilho) a obrigarem a uma estadia junto do nosso autor.
Paradoxal é, portanto, este esquecimento da actividade do Bocage tradutor ou da tradução em Bocage enquanto dado cultural, de um papel singularíssimo na sociedade do nosso século XVIII. Podíamos continuar a referir os nossos românticos, que, eles, não esqueceram esta actividade de Bocage. Podíamos referir outros tradutores seus contemporâneos, também nomes ilustres da nossa História Literária – Curvo Semedo, José Agostinho de Macedo, Filinto Elísio. Ou, então, as acesas polémicas a que o nome de Bocage continua ligado, tendo a tradução ora por tema principal, ora por tema adjacente. Não seria descabida, bem pelo contrário, uma antologia de textos capaz de fornecer uma visão da recepção da obra de Bocage. Nela caberiam certamente os versos de António Ribeiro dos Santos que, uma vez mais (Cf. Pais, 1997: 16), vou buscar ao ensaio de Maria Helena da Rocha Pereira «Bocage e o legado clássico» (Cf. Pereira, 1967-68):
Um é original, outro versão,
vários na língua, mas tão bem par’cidos,
que diriam que foram produzidos
por um esp’rito só, uma só mão.

O poeta e o tradutor
tanto entre si se ajustaram,
que parece que eles ambos
numa só lira tocaram. 

                                                           A obra traduzida de Bocage

Eufémia ou o Triunfo da Religião
Verso
François Thomas Marie de Baculard d’Arnaud

*

História de Gil Blaz de Santilhana
Prosa
Alain René Lesage
*

As Chinelas de Abu-casem
Prosa 

*

Os Jardins, ou a Arte de Aformosear as Paisagens
Verso
*

Ao Sereníssimo, Piíssimo, Felicíssimo, Príncipe Regente de Portugal...
Verso
*

Ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Rodrigo de Sousa Coutinho
Verso
 
*

As Plantas
Verso
 
*

O Consórcio das Flores, Epístola de La Croix a seu Irmão...
Verso

*
A Agricultura
Rosset 



Rogério e Víctor de Sabran, ou o Trágico Efeito do Ciúme
Prosa

*

Galathéa, Novela Postoril Imitada de Cervantes
Prosa
 
*

Ericia ou a Vestal
Verso

*

História de Paulo e Virgínia
Prosa
*
Raimundo e Mariana
 
Não identificado

* Obras que contêm prólogo do tradutor.

O Bocage, tradutor não pode prescindir da identificação da obra traduzida. Não pretendemos dar por encerrada a pesquisa que pretenda identificar as obras traduzidas por Bocage. O quadro acima apresentado dá apenas uma ideia do estado em que se encontra a pesquisa actual, que terá que ser revista e actualizada após a publicação da Obra Completa, anunciada e já iniciada por Daniel Pires. A este quadro, há que acrescentar um conjunto de traduções de obras que Bocage apenas levou a cabo parcialmente.


IDENTIFICAÇÃO DE OBRAS TRADUZIDAS


Lettres d’ Heloïse à Abélard Versão da edição francesa de Colardeau, original inglês de Pope

Epístola a Marília Imitação (do poeta Grego Alceu) de Parny

Arte de Amar
Ovídio

Lettres d’une Chanoinesse de Lisbonne à Melcour,Officier Français
Claude Joseph Dorat

Gessner

Fábulas
La Fontaine

Odes
Anacreonte

La Henriade
Voltaire

Jerusalém Libertada Tasso

Farsália
Lucano

**

Para além do que é evidente, e que os quadros mostram, a tradução dos clássicos e do francês, deve assinalar-se em Bocage o uso do verso na tradução e a explicitação, em ‘advertências’ ou ‘prólogos’, o modo próprio de encarar a tradução. O uso do verso é encarado por Bocage como ‘imitação’ da obra original. Se a obra original está escrita em verso, a tradução segui-la-á, utilizando também o verso na obra traduzida. A mestria do escritor/tradutor não se fica por aqui. A versificação da obra traduzida acompanha a da obra original na harmonia, na doçura e na energia, que esta emprega conforme a qualidade e grau da paixão a exprimir. Este programa ficou estabelecido logo na primeira obra traduzida por Bocage de que há memória, na ADVERTÊNCIA PRELIMINAR do tradutor a Eufémia ou o Triunfo da Religião (D’Arnaud), que, há já alguns anos, seleccionámos como texto representativo da tradução portuguesa no século XVIII (cf. Pais, 1997: 103).

Continuemos ainda na mesma direcção. Quanto à palavra do tradutor, publicou Bocage mais três ‘prólogos’, acima assinalados. O prólogo, pela sua própria natureza, é a manifestação mais evidente da reivindicação da autoria da tradução. A inscrição da autoria faz-se acompanhar da referência aos atributos do escritor. Metemos nesta conta os princípios da imitação da versificação do original e da defesa do ‘fértil e majestoso’ idioma, expressos logo no primeiro prólogo. Mas, logo a seguir, Bocage apresenta um propósito, que não pode aqui deixar de ser assinalado, que consiste em “evitar os galicismos de que abunda grande parte das nossas traduções”. Outra coisa não seria de esperar de um escritor; porém, o realce deve abranger sobretudo o dado histórico da crítica às traduções, iniciado ainda neste século, que tomará, com os nossos românticos, a forma do combate que terá, com poucas excepções, nos traduzideiros o pólo oposto ao dos escritores.
Nas curtas linhas do prólogo (transcrito, por isso, na totalidade) a Os Jardins (1800), o leitor encontrará o tradutor a lembrar o poeta já com ‘cabedal’ firmado, o afecto do seu público e, por fim, a apresentar o texto da tradução enquanto ‘composição poética’.
A gloriosa reputação do abade Delille, como literato e como poeta; a estima geral, dada ao seu poema dos Jardins, onde se encontram todo a atavio, toda a graça e toda a filosofia de que é capaz o assunto, me incitou a versificá-lo em vulgar, apurando nisso o cabedal que possuo em poesia, cabedal muito inferior ao apreço e acolheita de que estou em dívida com os meus compatriotas. O amor à glória e à gratidão talvez ainda criem na minha alma um ardor que a fecunde, tornando-me digno do afecto, com que me honra o público; e entretanto lhe apresento esta versão, a mais concisa, a mais fiel que pude ordená-la, e em que só usei o circunlóquio nos lugares cuja tradução literal se não compadecia, a meu ver, com a elegância que deve reinar em todas as composições poéticas.
No prólogo de As Plantas (1801), a tradução iguala a escrita autónoma, é, tal como esta, ‘honra do nome’. Talvez por isso, a afirmação constante do eu poético aí sobressaia. Indiscriminadamente, Bocage – o da escrita autónoma ou o da tradução - poderá dizer – “Vate nasci, fui vate”. José Agostinho de Macedo (1761-1831), como se sabe, haveria de manifestar o seu desacordo - perguntando: traduzir, isto é ser vate? – numa polémica que se tornou célebre, da qual trataremos em seguida.

(...)
À Pátria os versos meus são aprazíveis;
Versos balbuciei co’a voz da infância;
Vate nasci, fui vate, inda na quadra
Em que o rosto viril, macio e tenro
Semelha o mimo da virgínea face.
Se às Musas não pertenço, eu, que a Virtude,
Filosofia, Amor, cultivo, adoro;
Eu, servo da moral, das leis amigo,
Nos outros, como em mim, prezando a glória;
Eu, que cem vezes concebendo o Olimpo,
Absorto com Platão num mundo estranho,
Ou de olhos divinais divinizado,
Sinto no coração, na voz, na mente
Tropel de afectos, borbotões de ideias,
E - «Eis o Deus! eis o Deus!...» - exclamo e voo
De repente onde mil nem vão de espaço;
Pertencereis às Musas, vós, sem fama,
Sem alma, sem ternura?... Ah! Longe, longe
De meus cândidos sons, que se enxovalham
Peçonhentos dragões, na peste vossa.
Graças, oh Febo, oh nume! Oh Lísia, oh pátria!
Vossos dons, vosso aplauso alteiam, firmam
Sobre a cerviz da Inveja o meu triunfo.

Deixamos ao leitor, por fim, os últimos versos do prólogo de Ericia ou a Vestal (1805). Sobre eles, mais nada haverá a dizer para além do que ficou dito acerca dos já mencionados. Que sirvam de motivação para frequentar a escrita do poeta tradutor.

(...)
Bocage os atraiu do Sena ao Tejo,
Bocage, que de afeito à desventura,
E aos tormentos d’amor, cantar não sabe
Seus gostos casuais, seus bens tardios:
De vãos prazeres frívolos escravos,
Vós, almas frias, que a tristeza enjoa,
Ah! Longe, longe; - às almas, como a sua,
Dirige o vate a lutuosa of’renda,
E o pranto, que notar, será seu prémio.

Esta viagem pelos textos dos prólogos, numa forma que tinha que ser tão concreta quanto possível, tendo em conta a diversidade geográfica dos nossos leitores e dadas as dificuldades de acesso que continuam a subsistir à maioria dos textos de Bocage, esta viagem, dizíamos, não pode substituir-se à leitura e ao estudo das traduções. A isso convidamos os nossos leitores, com o texto traduzido de uma fábula de La Fontaine. Texto original e texto traduzido figuram lado a lado. A fidelidade, sempre pedida à tradução, não deixará aqui de constituir problema, como em qualquer tradução do texto poético. Porém, é para o TEXTO na língua de chegada que chamamos a atenção dos nossos leitores.

La cigale et la fourmi
(La Fontaine)

La cigale, ayant chanté
Tout l’été,
Se trouva fort dépourvue
Quand la bise fut venue:
Pas un seul petit morceau
De mouche ou de vermisseau.
Elle alla crier famine
Chez la Fourmi sa voisine,
La priant de lui prêter
Quelque grain pour subsister
Jusqu’à la saison nouvelle.
«Je vous paierai, lui dit-elle,
Avant l’oût, foi d’animal,
Intérêt et principal.»
La fourmi n’est pas prêteuse:
C’est là son moindre défaut.
«Que faisiez-vous au temps chaud?
Dit-elle à cette emprunteuse.
- Nuit et jour à tout venant
Je chantais, ne vous déplaise.
- Vous chantiez? j’en suis fort aise:
Eh bien! dansez maintenant.»

A cigarra e a formiga
(Bocage)


Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o Verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso Estio.

«Amiga, diz a cigarra,
Prometo, à fé d’animal,
Pagar-vos antes d’Agosto
Os juros e o principal.»

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh! bravo!», torna a formiga.
- Cantavas? Pois dança agora!»

**


publicado por assismachado às 11:47
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