ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Segunda-feira, 26 de Junho de 2006
CRÍTICA BOCAGEANA - FALAM OS ESPECIALISTAS
HERNÂNI CIDADE 4
“Para Coleridge é a poesia « a melhor palavra na melhor ordem ». Bocage assim o entendia, mas considerando como «a melhor palavra», não apenas a mais significativa e de mais funda ressonância, senão também a de mais genuína raíz vernácula; e considerando como «a de melhor ordem» aquela que melhor insinuasse o encanto da música ou aquela a que mais relevo desse o arranjo artístico ou a imagem fúlgida. Nem o musical encanto se obtém á custa da clareza e vigor expressivos, nem estes diminuem aquele. O verso de Bocage tem a fluência natural e nítida da prosa, acrescida, porém, de todo o poder encantatório e emocionante da poesia. Pode o poema surgir de veementes explosões e tumultuosos conflitos interiores. Nem por isso é quebrado o harmonioso equilíbrio entre a sua ressonância na sensibilidade e sua eficiência sobre a inteligência. As duas quadras seguintes são exemplo de como o poeta artista tudo sabe submeter ao seu fino ideal estético, sempre vivo e vigilante:
A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo
Paixão requer paixão; fervor extremo
Com extremo fervor se recompensa.
Vê qual sou, vê qual és, vê que dif’ rença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo!
Eu choro, eu desespero, eu chamo, eu tremo,
E em sonhos a razão se me condensa!
Sim. O homem apaixonado fez tudo isto: descorou, praguejou, ardeu, gemeu, chorou, desesperou, chamou, tremeu; mas «o artista» sabia por demais que a víscera do sentimento – o coração – é «o vil músculo nocivo à arte», como o qualificava Carducci, e por isso lhe ordenou os movimentos em frase que, já de léxico e construção sintáctica de viva força, ainda recebeu, como expoente de expressividade e encanto, o rítmo de maior adequação sentimental; ou seja, o rítmo sacudido, galopante, de choques sucessivos, para exprimir os múltiplos, sucessivos aspectos do tumulto emocional vivido no passo presente”.
( continua )