ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Sábado, 8 de Abril de 2006
POR VEZES BOCAGE ANDA POR AÍ ...
BOCAGE CONFESSA-SE !       


                                           BOCAGE entrevistado
                                           Por
                                           Imaginação Joteme

O mundo atravessa uma crise de valores, é uma verdade consensual. Há valores e valores. A Liberdade é um valor sagrado para uns. Mas, para outros, "há valores que mais alto se alevantam", como diria o Épico. Quando a barbárie fundamentalista começa a ganhar contornos preocupantes e ameaça fazer submergir o Mundo Ocidental com suas chantagens patéticas, eis que, vinda das brumas da História, surge essa figura imorredoira que dá pelo nome de Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino, o bardo iconoclasta e estrénuo defensor das liberdades fundamentais, sempre perseguido e vilipendiado em vida, mas, quiçá por isso mesmo, venerado e respeitado após a sua morte física. É, pela sua postura indomável, pelo seu carácter, daqueles que "se foram da lei da morte libertando", por isso, a jornalista Imaginação Joteme, graças aos seus poderes telepáticos, foi entrevistá-lo.
« Era um fim de tarde soalheiro. Imaginação vestiu-se de gala para honrar tão ilustre personagem. Assim, numa esplanada ensolarada, com aquele sol de inverno tão acariciador, na praça Luísa Tody, Elmano Sadino, com seu trajo típico, com o seu nariz adunco e olhar tristonho mas sempre atento e galanteador, foi desabafando:
B - Sabe, Imaginação, a liberdade está mais coarctada agora do que no meu tempo. Também havia censura... uns padrecos gordos e petulantes que iam aos jornais buscar algo para saciar a sua proverbial gula... mas nada de grave. Eu convivia bem com eles.
Nunca se viu invadir jornais (como agora no 24 Horas) e fazer uma devassa ignóbil!
I - A Justiça, então, não era tão persecutória?
B - Enfim, havia alguns juizes corruptos que, às vezes rosnavam umas ameaças quando eu escrevia aqueles termos libidinosos (mas vernáculos e puros!), mas eu sabia contornar esses mentecaptos: fazia-lhes um soneto e pronto... eles ficavam todos inchados e fechavam os olhos. Assim como quem dá uma nota de 50 Euros a um polícia que ameaça autuar-nos por conduzir sem carta...
I - Mas estes atentados à liberdade perpetrados pelos fundamentalistas, como isto dos cartoons ridicularizando Maomé, é coisa séria, não lhe parece?
B - Seriíssima! A Europa tem um património de tolerância e de multiculturalismo que é tão precioso como a Torre Eiffel ou o Arco do Triunfo e não o pode perder de maneira nenhuma . Há conquistas da Civilização que são irreversíveis. Estamos a recuar em termos de liberdade e de cidadania. Mesmo em Portugal temos assistido a cenas patéticas. A Justiça está uma megera de primeira. Há coisas que são de bradar aos céus!
I - O que é que o choca, Bocage? Desabafe connosco!...
B - Olhe minha amiga : aquelas cenas patéticas na Madeira, em que um tipo cheio de varizes na alma anda a fazer gato-sapato da democracia é uma delas. E em Felgueiras... Aquilo é diabólico! A Justiça (entre comas... aqui para nós!) anda de braço dado com a promiscuidade mais nua e crua!
I - Isso também consta lá nas paragens do Além?
B - Pudera! Aquilo é de bradar aos céus e aos infernos!
Diria mais. Estas cenas patéticas de em todas as comarcas os juizes levarem a tribunal cidadãos que são oposição ao poder local e que exercem o seu múnus de forma vertical e frontal é algo de patológico! Se um deputado municipal dá um peido (passe a expressão) vai logo a tribunal acusado de ter posto um artefacto bombista! Se um jornalista tosse, vai a tribunal acusado de injuriar e atentar contra a honra do presidente!
I - Mas, que podemos fazer? É assim... a Justiça que temos...
B - Nada de fatalismos. Há que lutar com todas as armas! Os jornais unidos devem destruir o poder que os tenta amordaçar !
Respeitem os vossos antepassados que nunca se deixaram vergar pelos opressores. Vede os exemplos de Camilo, de Camões, de Pessoa, de Aquilino, enfim, gente de boa cepa, gente de "antes quebrar que torcer"... portugueses de lei! Não vergueis a cerviz a esta Justiça pútrida e velhaca!
I - Bocage, há limites para a liberdade?
B - Claro que há, tem que haver!... Por falar em limites, no meu tempo não havia esse wonderbra, que lhe realça de forma magnífica, essas curvilíneas tetas, mas eu também tenho os meus limites! Limito-me a contemplá-los e jamais lhes tocarei por muito que custe ... claro que há limites, pois então!
(Imaginação ruborizou). Não esperava um galanteio daqueles vindo de alguém regressado do Além. Mas, erguendo o busto, arquejante, sentiu que esse galanteio era merecido. A maneira como se vestira para aquela entrevista era provocante.
Bocage prosseguiu, agora preocupado com o seu regresso.
B - Espero não ter que regressar ao meu país. Mas, quando regressar, gostaria de ver outra liberdade, outra justiça, outra alegria de viver, enfim, outro País. Este não é o país que Bocage tanto amou!... Entrego-lhe este poema que é o meu trabalho mais recente. Está muito contido em termos de linguagem espero que passe na "censura do JN"! Até sempre!
Imaginação ficou deslumbrada. Bocage desapareceu e deixou cair como uma folha de plátano outonal este poema. Era um Soneto.

                                      Esta coisa tão ruim que é a censura
                                      Essa velha megera encarquilhada
                                      Continua a castrar nossa cultura
                                      Pérfida criatura dementada!

                                      Versículos satânicos queimou
                                      Aos cartoons do profeta disse não!
                                      Tempestade cresceu, jamais parou
                                      O fanatismo é vento sem razão!

                                      O sonho andou pra trás, retrocedeu...
                                      Viver sem liberdade não é vida
                                      Por isso, aqui, não quero ter guarida!

                                      A Europa rasteja... penso eu
                                      Fez-se noite, tão negra como breu
                                      Bocage não vê luz!... 'stá de partida!


                                      Manuel Maria Barbosa du Bocage
                                      Setúbal 2006.02.25
                                      Joteme


publicado por assismachado às 18:01
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