Por América Miranda
Bocage era geralmente tido por inconstante nos seus amores. Trata-se de mais uma lenda tecida em volta do poeta. Acontecia com ele algo de estranho, infelicidade a acrescentar às suas desventuras as mulheres cansavam-se dele rapidamente. Amava com veemência, havia decerto na vivacidade e no ardor das suas palavras um irresistível poder de sugestão, a que elas se submetiam mais dominadas do que persuadidas. Nos primeiros tempos de entusiasmo, algumas chegavam a ceder tudo àquela espécie de fauno que era o nosso poeta. No entanto, deixando-se embalar mais nos seus versos que nos seus braços, não tardavam a trocá-lo por outro mais prosaico e talvez mais apetecido para a sua feminilidade. Muitas vezes, após o abandono, o nosso Vate ficava desalentado, outras, a consumir-se em intensos ciúmes, cujas labaredas procurava apagar com fogo de outro amor. Que se poderia esperar de um génio, de um homem infinitamente superior ao resto dos mortais e terrivelmente incompreendido? Ao passar o segundo centenário da sua morte, mais uma vez eu rendo as minhas homenagens ao Vate Imortal que foi e será sempre o meu ídolo, desde os bancos de escola até à fase outonal da minha vida em que me encontro. Bocage, o teu enorme talento e o teu génio perdurarão através dos séculos.
América Miranda , In O ARAUTO DE BOCAGE, Nº 95/96. de 2005
Os meus links