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Sábado, 4 de Março de 2006
ENTREVISTA BOCAGEANA - Diário de Notícias, 21-12-2005
BOCAGE : 200 ANOS

Entrevistadora : Ana Marques Gastão

Entrevistado : Adelto Gonçalves escritor e professor catedrático brasileiro

Outra visão do poeta em biografia recente 'Bocage, o perfil perdido' dá título a uma nova biografia do poeta (Caminho). O escritor e professor brasileiro Adelto Gonçalves nela faz revelações e faculta vasta documentação:
- A sua biografia BOCAGE, O PERFIL PERDIDO trouxe novidades, uma delas relacionada com o local de nascimento do poeta. Mas há mais dados inéditos...
- Localizei num códice do século XIX da Biblioteca Nacional um apontamento em que se diz que o poema cartas de Olinda e Alzira, que celebra o amor lésbico, é de Voltaire, traduzido por Bocage. Até aqui, esse poema sempre fora atribuído a Bocage, não se tendo encontrado o possível original de Voltaire, mas é uma pista que Florence Nys, da universidade do Minho, já se comprometeu a rastrear. Até porque no poema não há referência a Portugal, o que reforça a suspeita de que seja uma tradução.
- Há ainda descobertas sobre o pai ?
- Sim, a prisão do pai de Bocage na cadeia do Limoeiro, em Lisboa, de 1771 a 1777, por ter sido acusado de, como ouvidor em Beja, ter desviado a arrecadação da décima de 1769. Por causa disso é que a família teve a casa sequestrada pelo Estado como forma de ressarcimento. Na BN , verifiquei que a morada do largo de Santa Maria com a rua das Canas Verdes (actual rua de António Joaquim Granjo) fora comprada em 1693 por Leonardo Lustoff, comerciante que exercera as funções de cônsul da Holanda em Setúbal, falecido em 1701. Leonardo era pai de Clara Francisca, que se casaria em 1720 com o francês Gil l'Hedois du Bocage, que entrou para a armada real de Portugal na década de 1690. O francês estava perto dos 70 e Clara Francisca tinha pouco mais de 20 anos. Tiveram duas filhas uma delas, Mariana Joaquina, seria a mãe do poeta.
- Que contradições conseguiu a sua pesquisa aturada elucidar?
- Como pré-romântico, o poeta foi um rebelde que, muitas vezes, conviveu com o poder, fez versos bajulatórios à rainha e ao príncipe regente, como se exigia na época. Verifiquei num códice da biblioteca-museu da Casa Pia de Lisboa que Bocage ficou preso, a mando de Pina Manique, sob um processo de "reeducação", por mais tempo do que se sabia de 7 de agosto de 1797 até o último dia de 1798, quando recebeu uma esmola do Intendente em roupas, sapatos, chapéu e outros apetrechos.
- Que recolheu da documentação da Inquisição de Lisboa?
- Percebi que a epístola Verdades Duras, de filosofia anti-católica, motivo da prisão do poeta, correu às escondidas entre pessoas que odiavam a monarquia, adeptos das "ideias do século" originárias de França. Havia um movimento subterrâneo de literatos que, entretanto, fazia circular papéis considerados "ímpios e sediciosos".
- Que critérios seguiu no que se refere ao tratamento dos dados biográficos?
- Os da historiografia moderna, ou seja, toda informação se baseia em documento de arquivo devidamente especificado numa nota de rodapé. Com bolsa de pós-doutoramento da fundação para a pesquisa no espaço do Estado de São Paulo (Fapesp), pude ficar um ano em Portugal. Só com muita persistência se faz uma pesquisa séria. Levantei tudo o que me foi possível entre 1999 e 2000, e, depois, ao voltar para o Brasil, levei pouco mais de um ano para escrever a biografia. O livro ultrapassa a morte do biografado e fala dos embates entre Elmanistas, partidários de Bocage, e José Agostinho de Macedo, seu opositor...do último período de vida de Bocage, dei conta das contendas com os censores da real mesa da comissão geral sobre o exame e censura de livros, da sua actuação como tradutor na tipografia do Arco do Cego e dos últimos livros publicados. Reconstituí os últimos dias e fui além da morte, restabelecendo os embates entre os Elmanistas, em especial Pato Moniz e Macedo.
- Bocage viveu a prisão e a censura. Quais os reflexos disso na sua escrita?
- Parece-me que a prisão só serviu para que Bocage adoptasse um comportamento menos agressivo em relação à moral e ao poder, mas, se havia intenção de "reeducá-lo", o processo não obteve êxito; continuou a procurar os amigos maçons. E só não voltou para a cadeia em 1802 porque a força da Inquisição já não era a de antes. Isso deu-se quando uma jovem contou a um padre que havia visto o poeta a conversar sobre assuntos suspeitos.
- O facto de não ser português dá maior isenção à sua biografia?
- É provável. Como pesquisador estrangeiro, procurei fazer uma leitura isenta. Tentei construir a personagem dentro do que os documentos permitiam, até porque quem vem de fora sempre vê melhor do que aqueles que já estão no lugar há tempo. É possível que eu tenha cometido algum erro que um historiador português certamente não faria, mas o ser um investigador de fora conduziu-me à descoberta. Não podemos esquecer que estamos a tratar o século XVIII. Éramos todos portugueses então.
- Que pretendeu com este livro?
- Deixar o leitor diante de um Bocage tal como o conheceram os seus contemporâneos.


publicado por assismachado às 13:25
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