ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Quarta-feira, 27 de Julho de 2005
CRÍTICA BOCAGEANA - ALMEIDA GARRETT
PRIMEIRA GARRETTIANA

( ... ) Bocage, a quem seu fado, por mais aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo teatro das glórias portuguesas, voltando da Ásia foi recebido em Lisboa entre os aplausos dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infância do seu talento poético. Aumentou-se esta admiração com os novos improvisos do jovem poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro de seus versos. O fogo de suas ideias ateou o entusiasmo geral; a mocidade inflamou-se com o nome de Bocage: de entusiasmo degenerou em cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos ele em si mesmo. Ninguém duvidava que os improvisos dos cafés do Rossio eram superiores a todas as obras da Antiguidade, e que um soneto de Bocage valia mais que todos esses volumes de versos do século de D. João III e do de D. José. Esta era a opinião comum da mocidade; e tão geral se fez, tantas vezes a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que força era que a acreditasse, que com ela se desvanecesse e desvairasse.
Isso aconteceu. O temperamento irritável e ardentíssimo de Bocage o levava naturalmente às hipérboles e exagerações: essas eram as mais admiradas de seus ouvintes; requintou nelas, suboiu a ponto que se perdeu pelos espaços imaginários dea sua criação fantástica, abandonou a natureza, e a supôs acanhado elemento para o «génio». Mais ele repetia «eternidades», «mundos», «céus», «esferas», «orbes», «gorgonas», «fúrias», mais dobrava o aplauso, mais delirava ele, mais o admiravam. Ao cabo, nem ele a si, nem os outros a ele o sentiam. A par e passo que as ideias desvairavam, desvairava também o estilo, e, enfim, se reduziu a uma continuada antítese, perpétuos trocadilhos, «tours-de-force», pulos, saltos, rompantes, castelhanadas, com que se tornou monótono e ( usarei duma expressão de pintor) «amaneirado».


ADEUS, ADEUS !


Vai, vai... para sempre, adeus!
Para sempre, aos olhos meus,
Sumido seja o clarão
de tua divina estrela!
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la.
Alta está no firmamento
Demais, e demais é bela
Para o baixo pensamento
Com que, em má hora, a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci;
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão,
Donde me vem sangue às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe,
Porque é só terra – e não cabe
Nele uma ideia dos céus...
Oh! vai, vai; deixa-me! Adeus!

.........................................

Oh! vai-te, vai, longe, embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... Ai! não.
E que pude, a sangue frio,
Covarde, infame, vilão,
Gozar-te – mentir sem brio,
Sem alma, sem dá, sem pejo,
Cometendo em cada beijo
Um crime... Ai! triste, não chores,
Não chores, anjo do céu,
Que o desonrado sou eu.
...................................


Almeida Garrett,
In FOLHAS CAÍDAS


publicado por assismachado às 17:48
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