ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Sexta-feira, 19 de Maio de 2006
A TRIBUNA DOS POETAS - FELIX HELENO e CUSTÓDIA PEREIRA
GRITO

Por
Félix Heleno


Há um não sei quê de profundo
que eu queria dizer ao Mundo
mas não sei com que direito
só sei que não é um Mito
a frequência de um grito
que eu sinto aqui no meu peito
grito que não é meu
grito que me nasceu
ainda antes de mim
grito que me fala assim
baixinho mas tão gritante
que eu oiço a cada instante
em cada passo que dou
na ventura e na desgraça
grito que me ultrapassa
em tudo aquilo que sou
grito que é tão profundo
que os ruídos deste Mundo
não conseguem abafar
grito que anda comigo
que sendo tão meu amigo
quer que eu comece a gritar.

Gritar...
gritar mas gritar o quê
para quem e para quê
gritar que existe o amor
para quem suporta a dor
de uma desilusão
gritar gritar pela Paz
aonde a guerra só traz
a nossa destruição
gritar gritar pela esperança
onde não há confiança
num Mundo cheio de degredo
gritar que existe a bonança
onde uma pobre criança
começa a morrer de medo
gritar gritar pela justiça
aonde impera a cobiça
e a ganancia do poder
gritar pela igualdade
onde não há liberdade
no direito de viver
gritar aqui e além
que todo o poder do bem
não se deve destruir
gritar mas gritar o quê
para quem e para quê
se o Mundo não quer ouvir
não quer ouvir
mas tem de ouvir.
Tem de ouvir e a gente tem de gritar
a gente tem de gritar
enquanto em vez de verdade
existir a falsidade
a gente tem de gritar
enquanto em vez de justiça
permanecer a cobiça
a gente tem de gritar
enquanto em vez do amor
existir o ódio e a dor
a gente tem de gritar.

Enquanto um homem quiser
ser mais rude que saber
a razão porque nasceu
enquanto um homem tiver
muito orgulho em ser ateu
enquanto não se alcançar
toda a dignidade humana
mas dignidade de gente
de gente que não se engana
enquanto não se alcançar
a luz dum novo horizonte
enquanto não se beber
da água da nova fonte.

Enquanto não se beber
desse vinho ensanguentado
enquanto não se comer
desse pão crucificado
enquanto não se entender
que a Cruz é sempre um sinal
que é vertical para viver
no amor horizontal
enquanto não se entender
que ao darmos as nossas mãos
a outras mãos que se dão
é um sinal de irmãos
que existe em cada irmão.

Enquanto não se entender
que a verdade de viver
é algo que há-der surgir
não nos podemos calar
a gente tem de gritar
e o Mundo terá de ouvir !


Felix Heleno
In OLHOS DA MENTE


*

PALAVRAS DIFÍCEIS

Por
Custódia Pereira


Há palavras bem difíceis de dizer
outras que nos custam a acreditar,
há palavras que nos dão tanto prazer
e outras que nos fazem até chorar.

Há palavras que são puras mentiras
que nos magoam profundamente,
servem-se delas como armadilhas
para prejudicar a nossa mente.

Mas palavras difíceis podem crer
são aquelas que temos que dizer
num momento de despedida...

Quando esse adeus é para sempre
deixa-nos o coração até dormente
pois “adeus” é a palavra mais sofrida.

**


publicado por assismachado às 20:13
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Terça-feira, 16 de Maio de 2006
A TRIBUNA DOS POETAS - GRACIETT VAZ e FRASSINO MACHADO
PERFUME DERRADEIRO

Por
Graciett Vaz

Ah! Como eu relembro aquela tarde,
em que cheirava a mentrastos e a feno.
E nós beijávamos os lábios da mocidade.
Recordas-te do meu olhar, tão sereno?

Ai amor, em meu peito ainda arde
a fogueira que ateámos com o lenho,
feito de madeiro da grande saudade.
Daquele beijo ansioso e tão terno.

Nela ainda crepita o gesto verdadeiro,
na estação colorida pelas papoilas,
que aqueceu meu corpo por inteiro.

Banho-me em tuas carícias, meu brazeiro!
Em ideias loucas, mas tão só minhas,
e no cheiro do perfume derradeiro.

*

FRIO INVERNO

Por
Frassino Machado

O sol m' aquece neste frio Inverno
trazendo para mim uma vã esp' rança
de que a hora futura é de bonança
ainda que este sonho seja eterno.

Sei que da Natureza o olhar materno
para nós sempre volta com pujança
num clarear fogoso que alcança
o justo e calmo resplendor sereno.

Eu quero descobrir no desconcerto
a paz e harmonia e não decreto
p' ra poder dedicar-me à minha arte.

O que escrevo 'inda é algo muito incerto
e o chão é movediço qual deserto
confundindo o meu todo com a parte !

**


publicado por assismachado às 18:07
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CRÍTICA BOCAGEANA - FALAM OS ESPECIALISTAS !
DAVID-MOURÃO FERREIRA

( ... ) Ao contrário de André Chénier, seu contemporâneo e com quem tantas vezes tem sido aparentado, Bocage não poderia entoar esta receita de compromisso: «Sur des pensers nouveaux faisons des vers antiques». Em primeiro lugar porque, sob este aspecto, incomparavelmente “mais poeta” que Chénier, não era sobre pensamentos que lhe interessava fazer versos; em segundo lugar, porque sobre sentimentos novos – e estes é que eram realmente a sua matéria – não é possível fazer versos antigos. Faltou-lhe, no entanto, aquele segundo grau de génio – a que às vezes se chama talento – , aquela capacidade de encontrar (não parecendo sequer que se buscou) a novidade da forma que melhnor corresponda à novidade do sentimento. Incapaz desse «encontro» , Bocage permaneceu, portanto, um típico produto de transição. Com um pé nos degraus da Arcádia, como o outro suspenso ante os abismos enigmáticos do futuro, a sua posição, de tão instável, tão depressa nos comove como logo nos impacienta.

David Mourão-Ferreira



publicado por assismachado às 12:36
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A TRIBUNA DOS POETAS - HELENA BANDEIRA e PERPÉTUA MATIAS
AQUELE MELRO

Por
Helena Bandeira

Lembro aquele melro...
Que tão cedo acordava
e tão cedo começava
o seu inegualável canto...

Aquele canto que também
a ti, amim, ou aos dois
acordava...
E ao amor nos convidava!

Aquele especial canto
que os nossos desejos
despertava
e incendiava...

Eram desejos
para abraços e beijos
que sempre culminavam
num transcendente
mas sempre insuficiente
ritual de amor!...

Hoje, aquele melro
continua cedo acordando
e cedo cantando
o seu inegualável canto
que, no entanto,
já não nos acorda
para um ritual de amor...

Porque tu partiste...
e eu fiquei só e muito triste
chorando o meu desencanto...

Não posso, não quero!
Não quero mais ouvir
daquele melro tal canto!

*

DORNES

Por
Perpétua Matias

Dornes por água cercada
altar de graça e amor
tua Torre iluminada
à noite é um explendor.

São lindas as escadarias
e na Igreja, lá no alto,
há festas e romarias
num perfeito planalto.

O Zêzere se enamorou
quando vinha a passar
e logo por ali ficou
para te poder abraçar.

Dornes és moura encantada
vestida de realeza
por reis foste visitada
o teu porte é de princesa.

E as verdejantes colinas,
que te dão um tal encanto,
com a Torre de cinco quinas
e Nossa Senhora do Pranto!

**



publicado por assismachado às 12:29
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A TRIBUNA DOS POETAS - HUMBERTO DE CASTRO e JOSÉ RIBATUA
ALGUM MOTIVO

Por
Humberto de Castro

Procuro encontrar uma razão
que justifique
eu não querer acreditar em Deus...
Há guerras e fomes,
tantas injustiças e egoísmos,
desavenças entre várias religiões,
assaltos e pedofilia,
tanta ignorância e mesquinhês...
E Deus não vê ?
E Deus deixa tudo acontecer ?
E eu continuo à espera
que Ele me faça mudar de opinião
e me dê algum motivo
para não deixar de acreditar n’ Ele !

*

A MINHA VERDADE

Por
José Ribatua

As pedras da calçada vou beijar
meu amor te entrego
outra não desejo, não quero
por ti, imensamente cego
aceita-me como sou...
Não te engano, não te minto,
aceita a minha verdade
ao dizer o que por ti sinto!

**


publicado por assismachado às 12:24
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Segunda-feira, 15 de Maio de 2006
CRÍTICA BOCAGEANA - FALAM OS ESPECIALISTAS !
JACINTO DO PRADO COELHO

( ... ) Bocage, poeta do amor, situa-se claramente na linha de José Anastácio. Descobrimos nele a mesma exaltação do amor como algo absoluto, divino, que eleva os homens acima de si próprios; idêntico menosprezo do que considera preconceitos sociais; a mesma expressão desassombrada da embriaguês dos sentidos; uma linguagem fremente, impetuosa, de vocabulário intenso e sintaxe emotiva, embora menos inovadora que a de J. Anastácio, mais medida, mais pautada pela música do verso ... Bocage é um poeta de claro-escuro, ora de sombras noturnas, ora de serena luminosidade.
Ao ciclo dos poetas malditos - os poemas do amor vil, do falso amor - contrapõe-se o ciclo do amor ascensional, purificante. O poeta consumiu-se na busca incessante de uma felicidade impossível, ora inventando mulheres quiméricas, idealizando mulheres de carne e osso que depressa o decepcionavam, quando não o desiludiam de si próprio, ora evadindo-se pela volúpia dos sentimentos. O sentimento agudo da frustração leva-o a pensar no suicídio. A morte horroriza-o e ao mesmo tempo exerce nele uma poderosa sedução: é o esquecimento, a paz.
À poesia de Bocage faltou uma elaboração lenta, concentrada, uma selecção exigente, comandada por um gosto seguro. O poeta por demais se entregou à facilidade com que derramava palavras numerosas, manejando o seu aparato de figuras, metáforas e termos violentos. Os louros de improvisador prejudicaram-no.
A parte melhor, actual, da sua poesia é a que nos revela uma vida emocional intensa, a humanidade das fraquezas e contradições, dos conflitos íntimos, dos humildes apelos, a angústia perante o invisível, o diálogo transido com as forças ocultas que emergem do inconsciente, a sensação patética do malogro, do total isolamento, a atracção do nada - tudo isto comunicado por uma linguagem desigual, com frouxidões, é certo, mas capaz, muitas vezes, dum visualismo simbólico e duma densidade sugestiva que transmitem de modo lapidar, envolvente, motivos profundamente vividos.
O maior drama de Bocage, o mais pungente, foi o de ter vivido em tempo que lhe não convinha. Poeta grande, de vocação autêntica e precoce ( «Das faixas infantis despido apenas / sentia o sacro fogo arder na mente» ), Bocage viu-se forçado a arrastar o seu destino através de uma época de poesia medíocre. Nascido trinta ou quarenta anos depois, não é difícil imaginar o espaço que lhe caberia no palco do Romantismo: Garrett, a seu lado, haveria de parecer timorato ou comedido nas veemências da paixão; Herculano, decerto, não saberia levar-lhe a palma no sentimento da trágica soledade perante os outros homens ou diante do espectáculo da natureza inóspita; e Castilho, por sua vez, não teria porventura esperado que Antero viesse dizer-lhe, aos sessenta e cinco anos, um punhado de verdades cruéis e já quase inoportunas. Bocage, mais cedo, encarregar-se-ia de lhas ter dito. Mas o nosso Romantismo teve duas grandes infelicidades: a de surgir vinte anos depois da morte de Bocage e vinte anos antes
de Gomes Leal. Com estes dois dentro do naipe, o jogo teria corrido de outro modo.
De que servem, porém, conjecturas desta espécie ? O certo é que Bocage nasceu em 1765 - e que despertou, portanto, para a poesia ( «Meu tenro coração inda inocente / Iam ganhando as plácidas Camenas...» ) num pobre momento de exaustão e de crise. Já as Arcádias eram um triste arremedo do próprio arremedo que as Arcádias tinham sido. Mas brilhava ainda, nos salões e nas almas - em certas almas, pelo menos - todo aquele cediço guarda-roupa de pastores convencionais e de figuras mitológicas. A passagem de Bocage pela Nova Arcádia - a Arcádia do Conde de Pombeiro, «o fofo Conde», como o poeta lhe chamará - foi uma enorme gargalhada: a mais não podia ir, como reacção meramente individual. O pior é que os Mecenas do tempo ( aliás pouco pródigos ) e as Musas de ocasião ( quantas delas analfabetas! )
e, de maneira geral, todos os «consumidores» de poesia ( ou que fingiam consumi-la ) só compreendiam a linguagem poética - e só assim a consideravam «poética» - se se lhes falasse em ninfas, em numes, em zéfiros, em notos, em «plácidas Camenas» ...
 
Prado Coelho, Literatura Portuguesa e Crítica


publicado por assismachado às 19:46
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A TRIBUNA DOS POETAS - AMÉRICA MIRANDA e FERNANDO ELOY DO AMARAL
SONHO IRREAL

Por
América Miranda


Procurei por toda a parte
um amor tão proibido
não tive sequer a arte
de o ver assim dividido.

Fugia do meu amor
amando perdidamente
tinha no beijo o calor
que me fazia diferente.

E num abraço apertado
olhando os olhos meus
com um ar desesperado
disse-me um longo adeus.

E neste sonho sonhado
longe da realidade
sonho com um ser amado
que não chega a ser verdade.

E ando no mundo perdida
à procura de quem ama
enquanto o silêncio pernoita
nos lençóis da minha cama.

*

TRISTE LAMENTO

Por
Eloy do Amaral


Isto de amar Alguém é um mistério,
inefável raiar do que é Destino
de coração vibrante, em desatino,
tão crente em encontrar seu refrigério.

Recôndito Amor é deletério
de fazer a razão perder o Tino,
anseio exagerado tão supino
que acaba por ficar só despautério.

Isto de amar Alguém é bem confuso,
perturbação total do Sentimento
se já perdido há tanto esse bom uso.

Quando a mente irradia Pensamento
criticando sincero Amor profuso
só dá ao coração Triste lamento.

**


publicado por assismachado às 18:48
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