ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Terça-feira, 19 de Julho de 2005
A TERTÚLIA VAI DE FÉRIAS EM AGOSTO ! ATÉ BREVE !
SIM , EM AGOSTO A TERTÚLIA ESTARÁ DE FÉRIAS... POIS TAMBÉM PRECISA DE DESCANSAR E CARREGAR BATARIAS PARA ENTRAR EM SETEMBRO A TODO O VAPOR!

A NÃO ESQUECER :

A GRANDE TERTÚLIA DE BOCAGE - FESTA DE ARROMBA - REALIZAR-SE-Á NO
SEGUNDO SÁBADO DE SETEMBRO, PELAS DEZASSETE HORAS, NO AUDITÓRIO CARLOS PAREDES EM BENFICA . NELA SE LEVARÁ MAIS UMA VEZ A CABO UMA GRANDE HOMENAGEM AO FAMOSO VATE SADINO. CELEBRA-SE, COMO SABEMOS, O SEGUNDO CENTENÁRIO DA SUA MORTE !

TODOS À TERTÚLIA - CELEBREMOS E CANTEMOS BOCAGE E A POESIA !

AMÉRICA MIRANDA


publicado por assismachado às 19:02
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OS AMIGOS DE ITÁLIA - GIULIA CHIEFFI E BRUNA TAMBURRINI
L’ AQUILONE

Di
Giulia Chieffi

Il mio pensiero vola in alto
come un aquilone.

Il lungo filo…
è tra le mie mani.

Può spezzarsi
in ogni attimo

E lasciarmi…
indifesa.

*

O PAPAGAIO

Por
Giulia Chieffi

O meu pensamento voa alto
como um papagaio

O longo fio ...
está entre as minhas mãos.

Pode quebrar-se
a qualquer instante

E deixar-me
sem defesa.

*

RIMPIANTO

Di
Giulia Chieffi

Mi è scivolata la vita
Tra le dita…
come sabbia fina
in una calda estate.

*

SAUDADE

Por
Giulia Chieffi

É-me deslizante a vida
entre os dedos ...
como areia fina
num quente Verão.

***

NOI DUE

Di
Bruna Tamburrini


Ci siamo sempre conosciuti
Noi due
Quando alla mattina timoroso spunta il sole
È l’aurora nella splendore e chiarore dell’alba
Quando il sole di mezzogiorno è sopra di noi
Per ricordare il calore che dentro abbiamo,
quando nel tramonto il sole scompare
per nascondersi dietro le montagne
e riposare…da solo.
Ci siamo sempre conosciuti
Noi due
Nelle notti stellate
Ogni stella un ricordo
Ogni stella un pensiero.

E il riposo…poi ricominceremo da capo
Noi due.

*

NÓS DOIS

Por
Bruna Tamburrini

Aqui somos sempre conhecidos
Nós dois.
Quando pela manhã desponta tímido o sol
Está a aurora no esplendor e claridade da alva,
Quando o sol do meio dia está sobre nós
Para recordar o calor que nos preenche,
Quando no declínio o sol desaparece
Para esconder-se por detrás da montanha
E descansar ... muito só.
Aqui somos sempre conhecidos
Nós dois
Nas noites estreladas,
Cada estrela uma lembrança
Cada estrela um pensamento.

E o descanso ... depois recomeçaremos no início
Nós dois.

***

Tradução de:
Assis Machado


publicado por assismachado às 18:42
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Segunda-feira, 18 de Julho de 2005
A TERTÚLIA SOLIDÁRIA - FERNANDO ELOY DO AMARAL
O SR. FERNANDO ELOY DO AMARAL
ESTÁ DE LUTO

Faleceu esta semana, na sua residência, vítima de doença prolongada, D. Angelina Amaral, esposa deste nosso ilustre tertuliano - que o é desde a primeira hora - e
ao qual a TERTÚLIA POÉTICA AO ENCONTRO DE BOCAGE deseja
as mais sentidas condolências, bem assim à sua excelentíssima família.

América Miranda

O POETA DO SILÊNCIO

Em homenagem
ao Sr. Fernando Eloy


Vimos teu rosto silencioso e bom
impávido e sereno perante a morte
tomara virmos a merecer tal sorte
compondo partitura em feliz tom.

Secaste as tuas lágrimas de dor
e num ténue sorriso permitiste
ver naquela saudade que sentiste
ir-se mais uma vez o mesmo amor...

Venceste a morte abrindo a tua alma
àquela paz sadia e àquela calma
que levedam fermento em maresia...

Amigo, não 'stás só nesta jornada,
que a vida solitária não é nada,
e tens muito p' ra dar à poesia !



Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA


publicado por assismachado às 17:44
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Sexta-feira, 8 de Julho de 2005
CRÍTICAS BOCAGEANAS - ALMEIDA GARRETT / II
ALMEIDA GARRETT II


A metrificação de Bocage, julgam-na sua melhor qualidade; eu, a pior; ao menos, a que piores efeitos causou. Não fez ele um verso duro, mal-soante, frouxo; porém, não esses os únicos defeitos dos versos. As várias ideias, as diversas paixões e afectos, as distintas posições e circunstâncias do assunto, do objecto, de mil outras coisas, variada medida exigem; como exige a música vários tons e cadência. A mesma medida sempre, embora cheia e boa, ; o mesmo tom, embora afinado; a mesma harmonia, embora perfeita; o mesmo compasso; embora exacto, fazem monótona e insuportável a mais bela peça de música ou de poesia. E tais são os versos de Bocage, que nos pertendem dar para tipo seus apaixonados cegos: digo “cegos”, porque muitos tem ele ( e nesse número me conto ) que o são, mas não cegos. Imitar com o som mecânico das vozes a harmonia íntima da ideia, suprir com as vibrações que só podem ferir a alma pelo órgão dos ouvidos, a vida, o movimento, as cores, as formas dos quadros naturais, eis aí a superioridade da poesia, a vantagem que tem sobre todas as outras belas-artes; mas quão difícil é perceber e executar esse delicadíssimo ponto! Poucos o conseguiram: Francisco Manuel foi entre nós o que mais finamente o entendeu e executou, mas nem sempre, nem cabalmente.
Porém, nos intervalos lúcidos que a Bocage deixava o fatal desejo dew brilhar, nalguns instantes em que, despossesso do demónio das hipérboles e antíteses, ficava seu grande engenho a sós com a natureza e em paz com a verdade, então se via a imensidade dessa grande alma, a fina têmpera desse grande engenho, que a aura popular estragou; perdeu o pouco estudo, os costumes desregrados, a miséria, a dependência, a soltura a fome. Muitas epístolas, vários edílios marítimos, algumas fábulas e epigramas, as cantatas, não são medíocres títulos de glória. Dos Sonetos há grande cópia que não tem igual, nem em português, nem em língua nenhuma, duma força, duma valentia, duma perfeição admirável. O resto é pequeno e pouco. A linguagem é pobre; às vezes fácil, mas em geral escassa. Sabia pouco a língua; a força do grande instinto lhe arredava os erros; mas as belezas do idioma, só as dá e ensina o estudo. As traduções de Ovídio, Delile e Castel são primorosas.

*

NÃO TE AMO


Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett


*

GOZO E DOR

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida ou a razão.

Almeida Garrett


publicado por assismachado às 18:43
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A TRIBUNA DOS POETAS - AMÉLIA MARQUES E PERPÉTUA MATIAS
À GRANDE SENHORA DA POESIA
AMÉRICA MIRANDA

Por
Amélia Marques


É Poetisa,
não poetisa qualquer
de ideias espontâneas
escreve tudo o que quer.

É Poetisa,
poetisa de bem saber
Deus lhe iluminou o espírito,
o lindo dom de escrever.

Lindos poemas escreve
ao sol, à luz e ao mar,
visitada pela Musa
à hora do despertar.

Sua viveza de espírito
dá lugar ao bom humor,
mas, de grande sensibilidade
ao carinho e ao amor.


Amélia Marques

***

PRÍNCIPE ENCANTADO

- Ao meu neto Henrique -


Por
Perpétua Matias


És nuvem que passa,
Príncipe encantado,
pássaro que esvoaça
e flor do prado.

És a lua cheia,
folha de junquilho,
amor que enleia
cheirando a tomilho.

És o rosmaninho,
quando floresce,
és o meu carinho,
Sol que me aquece.


Perpétua Matias


publicado por assismachado às 18:00
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CRÍTICAS BOCAGEANAS - ALMEIDA GARRETT / I
Almeida Garrett I


( … ) Bocage, a quem seu fado, por mais aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo teatro das glórias portuguesas, voltando da Ásia foi recebido em Lisboa entre os aplausos dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infância do seu talento poético. Aumentou-se esta admiração com os novos improvisos do jovem poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro de seus versos. O fogo das suas ideias ateou o seu entusiasmo geral; a mocidade inflamou-se com o nome de Bocage: de entusiasmo degenerou em cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos ele em si mesmo. Ninguém duvidava que os improvisos dos cafés do Rossio eram superiores a todas as obras da Antiguidade, e que um soneto de Bocage valia mais que todos esses volumes de versos do século de D. João III e de D. José I. Esta era a opinião comum da mocidade; e tão geral se fez, tantas vezes a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que força era que a acreditasse, que com ela se desvanecesse e desvairasse.
Isso aconteceu. O temperamento irritável e ardentíssimo de Bocage o levava naturalmente às hipérboles e exagerações: essas eram as mais admiradas de seus ouvintes; requintou nelas, subiu a ponto que se perdeu pelos espaços imaginários da sua criação fantástica, abandonou a natureza, e a supôs acanhado elemento para o “génio”. Mais ele repetia «eternidades», «mundos», «céus», «esferas», «orbes», «fúrias», «gorgonas», mais dobrava o aplauso, mais delirava ele, mais o admiravam. Ao cabo, nem ele a si, nem os outros a ele o sentiam. A par e passo que as ideias desvairavam, desvairava também o estilo, e, enfim, se reduziu a uma continuada antítese, perpétuos trocadilhos, «tours-de-force», pulos, saltos, rompantes, castelhanadas, com que se tornou monótono e ( usarei duma expressão de pintor ) «amaneirado».
( continua )

SEUS OLHOS

Seus olhos --- se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou ---
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! --- e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett


DESTINO

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta --- <
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Almeida Garrett I


( … ) Bocage, a quem seu fado, por mais aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo teatro das glórias portuguesas, voltando da Ásia foi recebido em Lisboa entre os aplausos dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infância do seu talento poético. Aumentou-se esta admiração com os novos improvisos do jovem poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro de seus versos. O fogo das suas ideias ateou o seu entusiasmo geral; a mocidade inflamou-se com o nome de Bocage: de entusiasmo degenerou em cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos ele em si mesmo. Ninguém duvidava que os improvisos dos cafés do Rossio eram superiores a todas as obras da Antiguidade, e que um soneto de Bocage valia mais que todos esses volumes de versos do século de D. João III e de D. José I. Esta era a opinião comum da mocidade; e tão geral se fez, tantas vezes a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que força era que a acreditasse, que com ela se desvanecesse e desvairasse.
Isso aconteceu. O temperamento irritável e ardentíssimo de Bocage o levava naturalmente às hipérboles e exagerações: essas eram as mais admiradas de seus ouvintes; requintou nelas, subiu a ponto que se perdeu pelos espaços imaginários da sua criação fantástica, abandonou a natureza, e a supôs acanhado elemento para o “génio”. Mais ele repetia «eternidades», «mundos», «céus», «esferas», «orbes», «fúrias», «gorgonas», mais dobrava o aplauso, mais delirava ele, mais o admiravam. Ao cabo, nem ele a si, nem os outros a ele o sentiam. A par e passo que as ideias desvairavam, desvairava também o estilo, e, enfim, se reduziu a uma continuada antítese, perpétuos trocadilhos, «tours-de-force», pulos, saltos, rompantes, castelhanadas, com que se tornou monótono e ( usarei duma expressão de pintor ) «amaneirado».
( continua )

SEUS OLHOS

Seus olhos --- se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou ---
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! --- e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett


DESTINO

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta --- <<Floresce!>> ---
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.


Almeida Garrett


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Quarta-feira, 6 de Julho de 2005
A TRIBUNA DOS POETAS - ARMANDO DAVID / CUSTÓDIA PEREIRA
Por
Armando David


Ao traçar o seu retrato
nos versos que vou fazer
a sua figura trato
tendo algo para dizer.

Ela é a mãe do meu neto,
realeza a sua vida
e distribui seu afecto
sempre na mesma medida.

A sua altura é pequena
magra mas bem definida,
o rosto de tez morena,
uns olhos cheios de vida.

Raramente está calada,
ágil e muito mexida,
anda sempre atarefada,
resoluta e decidida.

Aqui revelando agora
uma jovem com firmeza,
já vos digo, é minha nora
o seu nome: Teresa!


Armando David

*


AMAR

Por
Custódia Pereira


Felizes dos que amam
que sentem amor no coração
vivem a vida melhor
com muito mais emoção.

O amor lhes invade
o coração e o pensamento
sentem tanta felicidade
que não o esquecem um momento.

Mas há também os infelizes´
que amam mas não são amados
se sentem muito tristes
por serem ignorados.

Mas na vida tudo passa
e tudo vai desaparecendo
só o amor vai ficando
para os que vão nascendo.


Custódia Pereira


publicado por assismachado às 18:19
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POETAS CONSAGRADOS - FILINTO ELÍSIO
Filinto Elísio (1734 -1819), pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, lendo livros racionalistas franceses proibidos pela Inquisição, teve de fugir para França, exilando-se em Paris em 1778.
Estabeleceu relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand, as Fábulas de Lafontaine e Púnica de Sílio Itálico.
Admirador de Horácio, defensor dos ideais iluministas e enciclopedistas, e das revoluções francesa e americana, a permanência em França marcou a sua obra. Nesta lamenta o obscurantismo português, evoca a gastronomia e os costumes pátrios, retrata as dificuldades e a tristeza crescentes da sua doença e da sua velhice.
O seu estilo segue os preceitos da estética classicista arcádica, sendo um defensor enérgico do purismo da língua. Apesar deste formalismo, muitos dos seus poemas reflectem uma grande intensidade emocional, no que têm de revolta e de sofrimento pessoais, o que faz com que alguns o considerem já precursor do Romantismo. Cultivou praticamente todos os géneros da poesia clássica.
A obra de Filinto Elísio tem sido estudada por Fernando Alberto Torres Moreira, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro ( Tese de mestrado com o título O Epigrama em Filinto Elísio – Um Género para um Poeta, 1995).
Têm vindo a ser publicadas desde 1998 as Obras Completas de Filinto Elísio. Fernando Moreira, professor da UTAD, com o apoio do Ministério da Cultura e do Instituto Português do Livro e da Leitura, coordenada actualmente a reedição das mesmas. Foram publicados até ao momento 4 volumes ( Filinto Elísio: Obras Completas, colecção Clássicos da Literatura Portuguesa, Braga, Edições APPACDM, 1998-1999. Edição de Fernando Moreira).

CONTO


Saiu da Samardã certo pedreiro,
faminto de ouro, em busca da fortuna.
Embarca, vai-se ao Rio, deita às Minas
e lida e fossa e sua, arranca à Terra
o luzente metal, que o vulgo adora.
Vem rico à Samardã: vinhas, searas,
casas, móveis, baixela compra fofo;
brocados veste, vai-se nos domingos
espanejar à igreja, acompanhado
de lacaios esbeltos. Vem o Cura
saudá-lo coa água benta; os mais graúdos
do lugarejo a visitá-lo acorrem;
para ele os rapapés, as barretadas
se apostavam de longe, a qual mais prestes.
Falaram-lhe os vizinhos, e a gazeta
na célebre Paris, cidade guapa,
onde todo o estrangeiro, nobre ou rico,
vai fazer seu papel. Ei-lo azoado,
que deixa a Samardã, que se apresenta
na capital francesa; roda em coche,
alardeia librés, passeia Louvres,
Versalhes, Trianões. Volta enfadado
à sua Samardã. – «Gabam tal gente
de polida?! Oh, mal haja quem tal disse!
Corri casas, palácios, corri ruas;
não vi um só, nem grande, nem plebeu,
que ao passar me corteje co chapéu!»

Filinto Elísio,
In OBRAS, vol. III


publicado por assismachado às 17:37
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CRÍTICAS BOCAGEANAS - JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO
«Diversamente julgado por quem sublinha de preferência as suas qualidades ou os seus defeitos, Bocage continua a ser pomo de discórdia para a Crítica»

José Agostinho de Macedo

Têm aparecido agora dois que fizeram seita, e que contam adeptos; o primeiro é um tal Filinto … e o segundo é um tal Elmano … Nas composições dos mancebos dados a metromania não transpira outra coisa mais que o mecanismo dos versos, a cantilena, os pensamentos destacados de um, e a aspereza e pedantesca cerzidura de palavras antigas do outro. Quantos danos produz esta perniciosa mania! O primeiro é arriscarem os moços o bom êxito do seu talento relativamente às letras. Nem todos podem ter a faculdade e a inclinação análoga às maneiras e ao génio daqueles dois homens que, longe de adiantarem a beleza sólida da poesia portuguesa, a atrasaram. Eis aqui os rapazes constituídos voluntariamente em um estado de violência obrigados a bater uma estrada enquanto a natureza os chama para outra inteiramente oposta. Desta maneira algemados , não se pode esperar deles uma composição que cheire a natural…
Tantos génios pois que há entre nós e tão aptos para a poesia, em lugar de se empaparem na estéril lição de Filinto e nas monotonias Elmânicas, onde se encontra sempre a triste linha recta, ou uma inalterável corda coral de prodigiosa virtude soporífica…


DAS PEDRAS NOUTRA MARGEM


Soube das pedras – das mais preciosas, diria -,
e era-o topázio no teu peito e no elevador,
de onde se via Nova Iorque envidraçado,
pensei a vida toda dos teus seios;

Quis, a cada paragem, o cantar as pedras
e, num manifesto, fazer das pedras meus versos,
a cor furtada ao brilho dos meus olhos
e o néon tremeluzente, tuas mãos;

Soube-as em dedos cuidados doutras musas,
em brincos e piercings fabulosos, no trote das deusas,
pelas montras e avenidas fabulosas, soube-as lindas;

Horas que se escapam das clepsidras e são areias,
inertes que se evaporam no néon da cidade
- topázio! – e continuam pedra, das pedras, em mim…



Filinto Elísio
In OBRAS

*

BOCAGE AOS SEUS PRÓPRIOS VERSOS


Chorosos versos meus desentoados,
sem arte, sem beleza e sem brandura,
urdidos pela mão da Desventura,
pela baça tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
no mudo esquecimento a sepultura;
se os ditosos vos lerem sem ternura,
ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire, oh versos, cobardia
da sátira mordaz o furor louco,
da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
que não pode cantar com melodia
um peito de gemer cansado e rouco.


Barbosa du Bocage
In RIMAS

**


publicado por assismachado às 17:24
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Terça-feira, 5 de Julho de 2005
A TRIBUNA DOS POETAS - HUMBERTO DE CASTRO / EUGÉNIA CHAVEIRO
ESTE CANTO

Por
Humberto de Castro

Este canto brota do coração da terra
e do sangue da raça
e recusa qualquer compromisso,
mas desafia que falem dele
– basta ouvi-lo em silêncio
e beberem na fonte das palavras
segredos arrancados
à musa do povo,
à Academia da rua –
e assim andar
de mão em mão
de boca em boca.
Este canto brota do coração
e das entranhas da terra
– este canto é o canto do povo!


Humberto de Castro
In POEMAS A NU

***

AS ESPÉCIES DE FLORES


Por
Eugénia Chaveiro


São variadas as cores!
Têm muitas aplicações
reconquistam os corações
e dão paz a tantos amores.

Eu queria poder descrever!
Contar em cada jardim
numa dimensão sem fim
tanta grandeza e poder...

Há ramos feitos com arte!
Para eventos importantes
em silêncio confiantes
viagem para toda a parte!...

A quietude é a sua voz!
... sempre mudas, e à mercê
quem pisa faz que não vê
sempre indefesas e sós...

As pessoas se comparam!
Diferentes, na sua sorte
enfeitando, em vida e morte
destino que lhes ditaram...


Eugénia Chaveiro


publicado por assismachado às 19:34
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