ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Quinta-feira, 5 de Agosto de 2004
A TRIBUNA DOS POETAS 2 *
ÁRVORES EM FLOR

Por Amélia Marques

Mimosas, lindas mimosas!
Cor de amarelinho canário,
sois a pintura mais bela
de todo este cenário!

Nesta radiosa manhã de Primavera,
poisou a veloz andorinha.
Na mais linda flor que encontrou,
ao longe, a branca borboleta
o seu voo acelera
e na andorinha poisou.

São estes pequenos , mas lindos seres
que aos nossos olhos encantam
e à natureza dão graça e beleza.

Oh, se a natureza falasse !
Muito tinha a implorar
ao homem que a maltrata
e que a pretende acabar.


Amélia Marques


publicado por assismachado às 22:23
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ILUSTRES POETISAS 9 - MATILDE ROSA ARAÚJO
matilde.jpg

Matilde Rosa Araújo, escritora em actividade desde os anos 40, nasceu em Lisboa em 1921. Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, foi professora do primeiro Curso de Literatura para a Infância, bem como do Ensino Profissional.
É autora de contos e poesia para o mundo adulto e de mais de duas dezenas de contos e poesia para crianças, às quais se tem dedicado, no que concerne aos seus problemas e à defesa dos seus direitos.
Algumas das suas obras reflectem a importância da infância na criação literária para adultos e na educação, assim como a importância da Literatura Infanto-Juvenil na formação da criança e na educação do sentimento poético como raiz pedagógica.
Em termos bibliográficos, segundo o crítico literário, José António Gomes, a sua obra obedece a três grandes temáticas: a infância dourada (a do sonho, inocência sábia; a criança sente o mal, mas não desconfia e vê as coisas com os olhos de quem vê pela primeira vez; é o deslumbramento); a infância agredida (a criança não é respeitada nem amada como devia); infância como um projecto (projecto social comprometido; a criança é sensível ao afecto; ela precisa de um amor responsável. “A verdadeira raiz de uma sociedade justa, fraterna reside nos Direitos da Criança...”, como afirma a escritora.).
A sua obra, além de se caracterizar pela vertente didáctico-moralizante, espelha a sua experiência de vida.
É uma autora, como muitos estudiosos defendem, cuja obra é próxima de uma escrita neo-realista (ver e contar realidades).
O "Livro da Tila" (1957), um conjunto de poemas infantis.
A “Estrade Fascinante” (1988) é uma obra direccionada, segunda Matilde R. Araújo, para “ todos aqueles que procurem junto da infância e da adolescência uma responsabilidade pedagógica através da literatura”, considerando esta, uma boa fonte na tarefa pedagógica dos professores.
O “Palhaço Verde” destacou-se como uma das suas obras de sucesso.
Assim, Matilde Rosa Araújo poderá ser destacada como autora de referência de livros infantis.


A CRIANÇA


A criança,
Toda a criança
Seja de que raça for,
Seja negra, branca, vermelha, amarela,
Seja rapariga ou rapaz.
Fale que língua falar,
Acredite no que acreditar,
Pense o que pensar,
Tenha nascido onde fora,
Ela tem direito...

Amor,
Alimentação,
Casa,
Cuidados médicos,
O amor sereno de mãe e pai,
Ela vai poder
Rir,
Brincar,
Crescer,
Aprender a ser feliz...


BALADA DAS VINTE MENINAS
FRIORENTAS


Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.


Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.


BANDO DOS GAMBOZINOS


Menina dos olhos doces
adormece ao meu cantar:
Tenho menina de trapos,
Tenho uma voz de luar...

Os meus braços são a lua
quando ela é quarto crescente:
dorme menina de trapos,
meu pedacinho de gente.


Matilde de Araújo
"O Palhaço Verde"


publicado por assismachado às 21:58
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2004
PONTOS ALTOS DA VIDA DE BOCAGE
CRONOLOGIA DA VIDA DE BOCAGE

Por Assis Machado

1765 – Nasce Manuel Maria de Barbosa du Bocage, em Setúbal, aos 15 de Setembro. Filho de José Luís Soares de Barbosa e de D. Mariana Joaquina Lestof du Bocage.

1773 – Escreve, segundo testemunhos fidedignos, os seus primeiros versos.

1775 – Fica órfão de mãe.

1780 – Completa, com distinção, os seus estudos básicos sob a orientação do professor espanhol D. João de Medina. Neste mesmo ano conhece, em Setúbal, o seu primeiro grande amor, Gertrudes de Noronha : a Gertrúria dos seus versos.

1781 – Em Setembro, assenta praça como soldado, no Regimento de Setúbal.

1783 – Transfere-se para a Armada Real, em Lisboa.

1785 – Completa os seus estudos medio-superiores na Academia Real da Marinha.

1786 – Consegue a patente de guarda-marinha. Vai para Goa, na Índia, a bordo da nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”, que faz escala no Rio de Janeiro. Aqui conviveu algum tempo, relacionando-se com as melhores famílias da cidade.

1789 – Rebenta em França a Revolução Jacobina Liberal, a qual impressionou deveras a sua própria personalidade.

1789 – Segue para a praça de Damão como tenente de Infantaria. Deserta, juntamente com alguns amigos e, acidentalmente, querendo ir para Macau, chega a Catão.

1790 – Regressa a Lisboa. Aqui granjeia fama como poeta e boémio inveterado.

1791 – Idílios Marítimos, Rimas ( 1º Vol. ) . Entra como sócio para a Nova Arcádia.

1791 – Escreve "Epístola a Marília" ou "Pavorosa Ilusão da Eternidade" e, contra Agostinho de Macedo, a famosa catilinária “Pena de Talião”.

1792 – Chegando a ser considerado aderente jacobinista e pedreiro-livre é detido sob a acusação de “herético perigoso e dissoluto”. Foi levado preso para o Limoeiro.

1794 – Aceita o cargo de tradutor, função que exerceu com engenho notável, apoiado por frei Mariano Veloso.

1798 – Transferem-no debilitado para o Recolhimento de Nossa Senhora das Necessidades, uma espécie de hospício.

1799 – Rimas ( 2º Vol. )

1804 – Rimas ( 3º Vol. ). Adoece com gravidade.

1805 – Morre Bocage, em Lisboa, aos 21 de Dezembro, assistido por sua irmã Maria Francisca. Foi enterrado no cemitério da Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Mercês, no Bairro Alto.


Organização de
Assis Mchado


publicado por assismachado às 20:18
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Terça-feira, 3 de Agosto de 2004
A TRIBUNA DOS POETAS 1 *
ESPERA VÃ

Por América Miranda


Espreguiçando-se felinamente
Na sua cadeira de espaldar,
A dama sensível e ardente
Espera o homem a quem queria amar.

Suspiros saíam do seu peito a arfar,
Os níveos seios eram de lava incandescente...
Mas o tempo impiedoso a avançar
Não trazia o amante, afinal tão indiferente.

Volúpia ou paixão abrasadora
Prenderá alguém a outro alguém
Ou vencerá apenas a ternura sedutora?

Aquela dama linda em vão esperou
Seu fogo abrasador não acalmou
Mas ficou só, perdida e sem ninguém!...

América Miranda


publicado por assismachado às 22:33
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FRASEOLOGIA CURIOSA E DIGNIFICANTE DE ALGUNS AUTORES - 02
SOBRE BOCAGE

- Chorai Ninfas do Sado e Tejo a Elmano
vossas águas honrou co’a lira d’oiro.
Quedas a ouvir-lhe o canto soberano.

Malhão

- ... Enquanto o mundo se lembrar de Camões, de Tasso e Milton,
lhe há-de lembrar também d’ Elmano o nome.

José Agostinho de Macedo

- Foi honrado, verdadeiro liberal e muito amante da sua liberdade
e fidagal inimigo da escravidão.

Francisco Joaquim Bingre


publicado por assismachado às 20:22
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EDITORIAIS BOCAGEANOS - 03 ... EM LOUVOR DE BOCAGE !
images.jpg

EDITORIAIS BOCAGEANOS – 03

Por América Miranda ( * )

O poeta Bocage, génio incomparável, repentista sem rival, rei inconfundível do Soneto, Vate cuja obra facilmente se poderia ter guindado às alturas da Epopeia, cantor malogrado, como nele foi malograda a única radicada paixão, foi em definitivo, um desventurado, dos que vêm ao mundo predestinados para muito sofrerem. Essa predestinação explica muitas das incompatibilidades e converte em dever a reabilitação da memória de “Elmano” frequentes vezes julgado com menos justiça e demasiada severidade por alguns erros que, como todos os mortais, ele cometeu. Por essa teimosia popular de não querer ou não entender o valor incontestável do Vate Sadino, a Tertúlia Poética “Ao Encontro de Bocage” tenta desde 1997 combater tão terrível injustiça. Assim, lenta e discretamente vai conseguindo, sem alardes, sem querer brilhar à sombra do Poeta, trazer a lume toda a sua rutilante e admirável poesia.

América Miranda

( * ) - “O Arauto de Bocage” - Ano VII - Nºs. 77 / 78


publicado por assismachado às 11:28
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ILUSTRES POETISAS 8 - NATÉRCIA FREIRE
NATERCIAFREIRE.jpg

Nasceu em Benevente, em 1920. Poetisa e novelista portuguesa, de direcção muito pessoal. mas com reflexos do modernismo subjectivista e ainda, de certo modo, do simbolismo. É considerada, nos meios literários, como a “Cecília Meireles portuguesa”. Cursou o Magistério Primário e colaborou nos Cadernos de Poesia, juntamente com alguns dos mais eminentes vultos da poética portuguesa. Integrou-se sempre em diversos projectos editoriais e dirigiu durante vinte anos o Suplemento Literário do Diário de Notícias. Detentora de prémios literários como o Antero de Quental ( 1947 ) e o Nacional de Poesia ( 1972 ), é autora de vasta obra, que abrange a Poesia, o Conto, o Memorialismo e a tradução, da qual destacamos :
- Não Vás, Minha Gazela e Poemas ( 1957 );
- Poesias Escolhidas ( 1959 ) ;
- Solidão Sobre as Searas ( 1961 ) ;
- Poemas ( 1964 ) ;
- Liberta em Pedra ( 1967 ) ;
- A Segunda Imagem ( 1969 ) ;
- Os Intrusos ( 1971 ) e
- Liberdade Solar ( 1979 ) .

POEMA

Nada tive que era meu.
Perdi estradas, perdi leito.
Na pedra aonde me deito
Nada fala de alvos linhos.
Se com cegos me aventuro,
a caminho rente aos muros,
é que meus olhos impuros
sonham Cristos nos caminhos.

Nada tive que era meu
e o corpo não quero eu.
Podia servir de embalo,
mas serve de sepultura.
Cemitério de asas finas,
tange e plange aladas crinas,
canto de praias sulinas
de infinita amargura ...

FANTASMAS

Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...

Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...

Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.

Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.

Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.

Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.

Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retracto
no movimento sem ato
que o Destino me destina.


O ROSTO QUE NÃO TEM ROSTO

Eu tinha uns olhos de neve
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.

O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.

Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...

Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protectora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.

Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.


CANÇÃO DO VERDADEIRO ABANDONO

Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.

Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.

Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastros.


REGRESSO

Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.

Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...

Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.

— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!

— Vou com ele, não volto, minha Mãe!

Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.

Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!

As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...

— Vou com ele, não volto, minha Mãe!


Pesquisa e recolha de
Frassino Machado


publicado por assismachado às 10:37
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Segunda-feira, 2 de Agosto de 2004
TERTÚLIA DOS RESISTENTES
arauto.jpg

Crónica de Assis Machado


Tarde quente do último dia de Julho de dois mil e quatro. Acabo de sair do Metro da Linha Azul. As carruagens de Amadora Leste terminam o seu longo percurso na estação da hospitaleira Baixa Chiado. Seguem-se as não menos longas escadas rolantes que, após quatro altos e trepidantes patamares, culminam com mais uma pequena escada pedestre de trinta degraus. Tudo isto faz estarrecer de espanto os mais incautos transeuntes destas paragens. Dei de caras com o nosso estático poeta Fernando Pessoa que, não tendo nos tempos que correm mais nada para fazer, virou em mono fotogénico de quem passa para inglês ver. Mas não era este mono que, decididamente, me preocupava. A tarde abafadiça que assentou arraiais naquela Baixa estival convidava à tomada de um refresco na histórica Brasileira que, indolente e despovoada, mostrava o seu parco mas acolhedor ambiente logo ali ao meu lado.
Só então, depois de entrar no forum poetarum olissiponense, é que reparei que eu próprio me encontrava carregado com pasta académica, de estante metálica familiarmente dobrável e ainda engalanado com viola clássica a tiracolo. Estava relativamente cansado. Todavia confesso que era cedo para a hora estipulada da Tertúlia. Optei então, confirmando cuidadosamente as horas no meu companheiro de andança, por descansar um pouco. Faltava ainda uma hora mais quinhentos metros para o início da Tertúlia. Pousei descontraidamente os meus apetrechos artístico-culturais no primeiro canto disponível da grande sala da Brasileira. Ao lado, no quiosque da entrada, comprei o Público do dia para me inteirar com mais propriedade das últimas ocorrências... enquanto que, a uma simpática e elegante serviçal ( presumo que brasileira, como é óbvio e costumeiro por estas bandas ) deixei encomendado um cearense café de companha com uma refrescante água acastelada. Enquanto tomava o meu tropical líquido ia refrescando o espírito por dentro e por fora com algumas páginas do ocasional periódico. Eis quando, depois de um sobressalto inevitável, reparei serem horas de me remeter ao mister da tarefa que para hoje estava destinada.
São já catorze e cinquenta da tarde quando, finalmente, cheguei à Sociedade Portuguesa de Naturalogia. Dei logo de caras com uma tertuliana afoita. Juntei-me e, daí a pouco mais de cinco minutos chegou a nossa Presidente e mais dois ou três tertulianos. Subimos os quatro patamares de escadas, desta vez de madeira neo-clássica encerada e por fim pudemos repousar a nossa ofegância justificativa na ampla sala de reuniões e convívios desta egrégia Sociedade. Deve esta a sua existência à boa vontade dos seus sócios e simpatizantes que “acreditam na possibilidade do ser humano desenvolver a sua consciência e potencial e dar o seu contributo para a criação dum mundo mais saudável”.
Dos sócios da Tertúlia Bocagiana... apenas cinquenta por cento dos seus membros disseram presente. Sinais de fim de Verão e início de férias. Da Sociedade benemérita, representada pelo incansável Sr. Moreira Rijo que –demonstrando a sua pertinácia pela sempre louvável campanha em prol do espírito e das artes – por isso mesmo, foi a melhor amostra de que, afinal uma Tertúlia Poética pode e deve ser acarinhada. Por este facto, o nosso sincero e amigável reconhecimento.
O que se passou a seguir foi, na verdade, delicioso. Cantou-se o hino de “Bocage Sonhador” – não fôramos nós também incorrigíveis sonhadores – e a nossa Presidente América Miranda presenteou-nos, logo de entrada, com uma dissertação que, não sendo demasiado extensa, conseguiu mais uma vez enriquecer-nos com úteis ensinamentos sobre a saga do nosso Vate Sadino. É que esta Sessão estava dedicada, na origem, à personalidade do poeta Bocage. A autora destacou os passos mais significativos e representativos da vida de Bocage, bem assim alguns traços marcantes da história da sua Época.
Após a brilhante exposição da nossa Presidente, ouvida por todos com suma atenção, trocaram-se algumas palavras de esclarecimento sobre a temática exposta e, enfim, deu-se início a uma Ciranda de declamação pelos poetas presentes e convidados. Houve três rondas poemáticas pelos presentes, cada uma delas entremeada com mais uma actuação à viola de mim próprio. As duas canções mais destacadas tinham música de minha autoria e os textos são, respectivamente, de América Miranda « A força das Palavras» e de Humberto de Castro « Quisera » . Até alguns dos presentes foram trauteando com entusiasmo certas partes das referidas canções.
Quanto aos poemas declamados, sendo que na primeira ronda teria que ser um da autoria do homenageado – facto que praticamente todos cumpriram, a partir da segunda ronda cada um pôde declamar de sua autoria ou então de autoria de qualquer outro poeta, consagrado ou não. Passaram então por esta Tertúlia, entre outros, poemas de Fernando Pessoa, José Régio, Júlio Dantas, Pablo Neruda, Garcia Llorca, Florbela Espanca, Alda Lara, etc.
O ambiente foi sempre agradável até ao fim. Trocaram-se impressões, ideias, opiniões e até se conseguiu que dois dos assistentes a esta Tertúlia, quiçá bastante inibidos de início, declamassem eles mesmos os seus textos por força da acção inteligente e oportuna de América Miranda.
Terminou a Sessão cerca das dezoito horas pelo que, satisfeitos com as actuações uns dos outros, houve lugar às despedidas para as reconfortantes férias estivais.
A próxima Tertúlia ficou aprazada para o dia onze de Setembro – no Auditório Carlos Paredes, de Benfica – Tertúlia essa que constituirá o ponto alto de todas as Tertúlias anuais, já que é dedicada integralmente ao grandioso ídolo da nossa mais genuína poesia, Bocage de seu nome.


Assis Machado / Frassino Machado


publicado por assismachado às 19:52
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A TRIBUNA DOS POETAS 21
QUERIA

Por Lídia Susana

Eu queria ser a luz que te abraça,
Que ao despontar do sol te aquece
Como a mais lenta e quente brasa
A chama que jamais te aborrece!

Eu queria ser a árvore outonal
Que ao cair da folha te tocasse,
Te emocionasse, sem seres banal,
Sem teres gesto para que voasse.

Eu queria o teu eterno sorriso
A tua mão fiel e carinhosa
Queria regular o teu juízo
Despontar em ti como uma rosa!

Eu queria, queria ter-te totalmente
Para sempre te ver e te adorar
Queria entrar dentro da tua mente
Para além de te querer, muito te amar!

Lídia Susana


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Domingo, 1 de Agosto de 2004
ILUSTRES POETISAS 8 - ALDA LARA
ALDALARA.jpg

Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962. Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluiu o 7º ano do Liceu. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI).
Obra poética:
Poemas, 1966, Sá de Bandeira, Publicações Imbondeiro;
Poesia, 1979, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Poemas, 1984, Porto, Vertente Ltda. (poemas completos).


PRESENÇA AFRICANA

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...

- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...

TERRA !

Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...


ANÚNCIO

Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...

Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...

Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...


PRELÚDIO

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos,
nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...


RONDA

Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...

Na dança dos dias
meus dedos cansaram...

Na dança dos meses
meus olhos choraram
Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!

Na dança dos meses
meus olhos cansaram...

Na dança do tempo,
quem não se cansou?!

Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...

Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando?


Alda Lara
In POEMAS


publicado por assismachado às 13:15
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