ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Domingo, 16 de Outubro de 2005
CRÍTICA BOCAGIANA - ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO
CAMÕES E BOCAGE
Com quase dois séculos e meio de distância, nascem de famílias honradas, mas de pouca fortuna, os dois máximos cantores portugueses, no prazo precisamente em que mais úteis podiam ser, como exemplares à língua e poesia nacional. Camões regulariza e fixa, com o adjutório do latim, do italiano e do espanhol, a arte de escrever claro e culto (...). Bocage, outro Messias literário, ofusca, dispersa, quase aniquila de todo a sinagoga arcádica. Forte igualmente com os idiomas da antiga e moderna Itália, e com o francês, de que ele sabe não colher senão o necessário, o útil e o bom, abelha delicada entre insectos impuros que só venenos lhe sugavam, dá a ouvir pela primeira vez aos ecos multiplicados e atónitos um falar altíloquo e tenso, claro e elegante, cheio e harmonioso, como nenhum, em poesia, ainda por cá se ouvira, nem se tornou a ouvir, depois que ele emudeceu.
Camões e Bocage são, pois, ainda hoje, dois mestres; mas o segundo, por mais achegado a nós, mestre para mais aproveitamento. Na tradução inexcedível, no soneto inegualável.
Em rumos encontrados, e com a mira em estrelas diversas, é sempre a mesma luz celeste, a beleza, quem os enamora, quem lhes chama: aos olhos, ora o riso, ora as lágrimas; ao coração, ora a esperança, ora o ciúme; aos lábios, ora os hossanas, ora os impropérios, que são ainda amor. Por isso, nem um nem outro se atreve a escolher uma companheira para a jornada trabalhosa da vida. Por filhos e herdeiros se hão-de deixar as próprias obras.
Dentre estes nove engenhos ( escritores contemporâneos de Bocage ) não vulgares, não houve um, sem exceptuar o padre Macedo, flagelado com a mais tremenda e memorável das sátiras bocagianas, que me não confirmasse (...) que o improvisador Elmano fora ainda muito maior na facilidade e felicidade da improvisação, que nos seus versos esmerados para a luz pública, como poeta, poderão os diversos gostos contrapor-lhe um ou outro rival; como repentista, nenhum.
Feliciano de Castilho