ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005
CRÍTICA BOCAGEANA - JOSÉ MARIA DE ANDRADE FERREIRA E CAMILO CASTELO BRANCO
ANDRADE :
( ... ) Não houve repentista que sequer de longe o rastejasse; mas todos os seus improvisos lidos têm os defeitos que na improvisação se esquivam à análise. Os seus Poemas de curto e longo folgo são soberbos no arrojo das ideias, na travação harmónica das palavras, no descomunal das metáforas. As hipérboles são sempre excelentes, se dispartam da indignação ou da zombaria. A frase tem elegâncias apesar dos deslizes da elocoção e dos bordões a que se encostam nas passagens em que o adjectivo não ocorre solícito. Claro é tão dilecto a Bocage como o ledo a Camões, o santo a Ribeiro dos Santos, e a Garrett o doce. Os Sonetos forma gentilíssima e magistral de sua índole, «mais propensa ao furor do que à ternura», são uma orquesta estrepitosa em que raras vezes se ouvem as toadas gementes da harpa. Sem originalidade no pensamento, dá ares de criador pelo ressalto das cores. Encadearam-no, cortando-lhe os voos do génio, as peias da Mitologia; por isso, é tão pálida a idealização dos seus poemas, raras vezes levantados a ideias abstractas.
CAMILO :
( ... ) Resgatou-se Bocage, por vezes, da sua escravidão das turbas, refugiando-se a só na dor da saudade ou nos raptos religiosos, que os tinha ardentíssimos como todos os infelizes. O episódio da «Sau8dade materna» ressuma sinceras lágrimas; e o grito da alma aflita vibrado como recurso extremo a Deus, nas horas em que o poeta, entrado na agra consciência do seu perdido destino, nos está insinuando quão diverso seria Bocage, se, na mocidade, mãos amigas e experientes lhe alisassem as asperezas da vereda, que estorva e irrita o génio irreconciliável com as condiçõs positivas da vida.
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