ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Sábado, 10 de Fevereiro de 2007
BOCAGE, O GRANDE PERSPICAZ !
                                                    
 
         ESPERANÇA AMOROSA


Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz! --- Longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores,
Hei-de enfim possuir: porém segredo!

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Não leveis, não façais isto patente,
Quem nem quero que o saiba o pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque, se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.


Bocage


publicado por assismachado às 18:33
link do post | comentar | favorito
|

CRÍTICAS BOCAGEANAS II - ESTHER DE LEMOS

 

                                          BOCAGE VERSUS TRADIÇÃO II


A época de Bocage oferecia-lhe apenas, como formas imediatas de ressonância e de consagração, as vitórias disputadas em outeiros poéticos e em Academias, onde campeava a banalidade fátua dos versejadores da moda; ou, então, proporcionava-lhe os rápidos triunfos de botequim, essas bnoites ardentes em que improvisava de pé, na roda dos admiradores de ocasião. Foram talvez dos mais belos momentos da vida do poeta, que os evocou mais tarde com doloroso prazer:

Respiração divina,
entusiasmo augusto, alma do Vate!

Que rápidos portentos,
portentos em tropel não deste às Fama,
não deste à Natureza,
à Pátria, ao Mundo, a Amor,
na voz de Elmano!
Oh êxtase, oh relâmpagos de glória,
faustos momentos de ouro,
com que meu grado comprei
na Eternidade!

A musa declamatória e verbosa de Elmano reclamava a pronta adesão de um público, Bocage não pôde resistir às solicitações do êxito, mesmo sob as formas menores que se lhe ofereciam. Bateu-se pelas gloríolas de momento com a singela convicção de quem se bate pelo que lhe é devido.
O botequim das Parras, ao Rossio, conhecido na época pelo «Agulheiro dos Sábios», foi o primeiro teatro do seu talento transbordante. A Nova Arcádia deu-lhe depois uma ilusão de dignidade e decoro artístico; mas depressa se cansou da mediocridade e pretensão dos sócios daquela Academia, a que presidia o faceiro poeta Caldas, o mulato tocador de viola, o «neto da rainha Ginja», como impiedosamente o baptizou. Ainda foi com os árcades ao Paço festejar em verso os anos de uma Infanta.
Mas a grandeza inconformista do seu génio rebentou os estreitos quadros da poesia oficial. Saturado de musas postiças, desfechou sobre a Nova Arcádia a trovoada das suas sátiras, e em gestos de arrasante soberba foi-se enchendo de inimigos. Contra um dos mais acesos, José Agostinho de Macedo, escreveu mais tarde Bocage a terrível sátira «Pena de Talião». E uma vez mais, em versos de sonoro orgulho, proclamava a sua grandeza e a profunda originalidade do seu talento, que a lição assídua e a tradução dos clássicos não turvara, e que o lugar comum de sala não pudera derrancar:

Não sou, nem de improviso, o que és de espaço,
claro auditório meu, vingai-me a glória.
Vós que em versos altíssonos mil vezes
me viste ir voando às fontes do Estro,
Dizei se me surgiram Grécia e Roma
nas prontas explosões do entusiasmo!

Este orgulho, que se estribava na consciência de possuir um dom raro e quase divino, tinha, desde cedo, a dignificá-lo o selo do infortúnio, a singularidade de um destino de amarguras.
E as piores das amarguras, aquelas de que fala Camões, e nascem «de erros em que não pode haver perdão / sem ficar na alma a mágoa do pecado».
Os grandes temas da poesia de Bocage – o amor, a morte, a noite, a glória e a miséria do poeta – são, estes sim, já românticos.
Romântica e aguçada, exacerbada consciência de si mesmo, e também e sobretudo a paixão transbordante e quase frenética que anima tantos dos seus versos.
Mas a época em que Bocage viveu, os recursos formais que a arte literária lhe oferecia, o gosto educado pela poética neo-clássica, a pompa fictícia, retórica, da Arcádia, interpuseram muitas vezes entre o leitor moderno e a alma ardente do poeta uma barreira de convenção e artifício.
São muitos, porém, os passos da obra de Bocage em que a força do seu génio sacudiu as galas de convenção que o constrangiam – e se mostrou original, profundo e tão comunicativamente humano, no seu pessimismo nocturno, na sua contrição, na sua entrega ardente ao Amor, ao pecado e à dor, como soberanamente artista na beleza de uma expressão que se torna de repente pura, certeira e nova.
Por esses momentos de ouro, Bocage continua vivo entre nós; e o seu sonho de imortalidade, que a nomeada grosseira caricaturou, realiza-se afinal, na emoção com que escutamos ainda a sua voz ardente. 


                                                     F I M


publicado por assismachado às 18:20
link do post | comentar | favorito
|

ESTE ESTRANHO BOCAGE !
Ó TU, CONSOLADOR DOS MALFADADOS


Ó tu, consolador dos malfadados,
Ó tu, benigno dom da mão divina,
Das mágoas saborosa medicina,
Tranquilo esquecimento dos cuidados:

Aos olhos meus, de prantear cansados,
Cansados de velar, teu voo inclina;
E vós, sonhos d'amor, trazei-me Alcina,
Dai-me a doce visão de seus agrados:

Filha das trevas, frouxa sonolência,
Dos gostos entre o férvido transporte
Quanto me foi suave a tua ausência!

Ah!, findou para mim tão leda sorte;
Agora é só feliz minha existência
No mudo estado, que arremeda a morte.

Bocage


publicado por assismachado às 18:14
link do post | comentar | favorito
|

CRÍTICAS BOCAGEANAS - ESTHER DE LEMOS

                                   BOCAGE VERSUS TRADIÇÃO I

Ironia de um destino infeliz que se prolongou para além da morte: Bocage é hoje ainda para o rural analfabeto da mais remota aldeia, para o garoto precoce das ruas, para a regateira dos mercados de Lisboa – Bocage é hoje ainda apenas um grande farçola, descarado e vadio, que dava respostas a tempo e tratava as coisas pelo nome. E ante essa imagem tosca fixada na tradição, pouco mais que um nome de personagem cómica a autorizar dichotes de mau gosto, acode-nos a palavra do poeta na agonia: «Já Bocage não sou».
Dizia-o na hora da suprema renúncia, sentindo que já a mesma personalidade se lhe desagregava e diluía nas sombras do fim: «Já Bocage não sou».
Mas, repetimo-lo nós, involuntariamente, imaginando o que o poeta diria se visse o que dele resta na tradição popular: já Bocage não é, com efeito, esse Bocage de feira; a máscara grosseira e deslavada oculta o rosto fulgurante de um dos maiores líricos portugueses – o maior do Século XVIII.
Ironia de um destino estranho. Porque Bocage odiou justamente as formas inferiores de contacto com o público e estigmatizou a “literatura de cordel»,a insulsa trivialidade dos almanaques, a venda ambulante de livros que rebaixava ao nível de vil mercadoria a obra pura do espírito. E muitos dos seus contemporâneos experimentaram o vigoroso sarcasmo com que chicoteava os traficantes de literatura barata.
Se Bocage soubesse que o seu nome assina hoje tanta piada insulsa e ordinária, riria talvez – ele que em tantas vezes soube rir de si mesmo – , riria com aquele riso de imortalidade que já antevia, ao sentir-se resvalar na decadência do fim: «Eis, no marco fatal, meu fim terreno! / Mas surgirei nos astros / Para nunca morrer! / Com riso impune, / Lá, zombarei da sorte».
Não foi, na verdade, com esta fama popular, aviltante, que Bocage sonhou. Tê-la-ia desdenhado e repelido se pudesse conhecê-la. Foi pela imortalidade do seu puro nome de poeta que se bateu sem descanso. Foi com a esperança dessa imortalidade que se consolou, nas horas amargas, das misérias do seu destino. Mais, ainda: foi ela que lhe permitiu encarar com serenidade quase alegria a morte próxima. A antevisão do pranto que os seus compatriotas fariam por ele, a certeza de permanecer na memória dos homens, arrancou-lhe alguns desses brados triunfais em que a sua lira é fértil, e modelou em frases lapidares uma exaltação que tem alguma coisa de teatral e de comovedoramente ingénuo – a volúpia das homenagens póstumas: «Meus dias murcharão, mas não meus louros».

( Cont. )



publicado por assismachado às 18:02
link do post | comentar | favorito
|

Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007
A TRIBUNA DOS POETAS - HELENA BANDEIRA E FERNANDO DO AMARAL
MEU CORPO NU ...


Por
Helena Bandeira


Meu corpo nu...
Meu corpo nu e tenso,
meu Ser absorto num vazio imenso!

Imagino que és tu...
Julgo serem os teus
os passos que oiço,
que afinal são os meus!
E em teus braços me baloiço,
em teus braços me aninho...
Meu corpo nu ao teu se cola,
o meu Eu encontrou seu ninho
e de ti não se descola!
Nossos corpos se entrelaçam,
nenhum de nós respira,
cada um de nós é uma espira
da espiral que agora somos!
Duas almas gémeas se enlaçam...
E dos dois seres que já fomos
hoje, apenas um de nós o é,
Eu... sozinha com a minha Fé!

Meu Ser absorto num vazio imenso!
Meu corpo nu e tenso...
Meu corpo nu!...

*

QUE VENHA A LUZ DO DIA !


Por
Fernando Eloy do Amaral


Já vem chegando a noite e o pavor
a quem vive na triste solidão,
sentindo magoado coração
com eterna saudade dum amor.

A vida vai perdendo o seu frescor
e ganhando constante perdição.
Como um sonho ficou desilusão
tornando uma doçura em amargor.

Como a vida tão bela e colorida,
a viver o real, a fantasia,
vai tendo prazer, dor, sempre em seguida.

Nesta noite, de insónia e agonia,
com negrura na alma entristecida,
que venha, a pouco e pouco, a luz do dia.

***


publicado por assismachado às 19:21
link do post | comentar | favorito
|

FALAM OS ENTENDIDOS - "CRÍTICAS BOCAGEANAS"
                               BOCAGE PRE-ROMÂNTICO II

                                                     Por
                                              Artur Anselmo


( Continuação ). Parenteticamente, um vasto acervo de experiências pessoais: não apenas as mulheres que amou ( Gertrudes, Marília, Márcia ... ) mas também os azares da fortuna, o naufrágio a caminho de Macau; a enfatuação dos goeses com quem lidou; o regresso à Metrópole; as tragédias e comédias que viu representar; o cigarro de frei João de Pousafoles; o mulato Joaquim Manuel, improvisador de modinhas; o coveiro do cemitério da Esperança que vendia iscas de defunto a um pasteleiro visinho; «o Bedel do Pindo, o doutor França»; «o pavão Belmiro» ( Belchior Curvo Semedo ); as sessões da Nova Arcádia; a solidão do cárcere; « o deus da razão, o deus de Elmano»; o seu parceiro de prisão André da Ponte Quental ( «dois nomes imortais – Bocage e Ponte !») ; o « encantador Garção »; os anos de Dona Ana Eufrásia; o incêndio da calçada de Santo André; a ascensão aerostática do capitão Lunardi; os primeiros sintomas da doença que o mataria; a morte de Nelson, «raio do sul, raio do norte!»; o José Pedro da Silva, “a quem pagava em metro o que devia em ouro”; os amigos, com Nuno Álvares Pereira Pato Moniz à cabeça; a reconciliação com os homens da Arcádia; os trastes que tinham sido de seus pais, encontrados numa excursão a Setúbal, etc.
Na diversidade destes episódios se constituiu o poeta, figura de escritor profissionalizado com brio, mas nem sempre devolvido pela posteridade às proporções de alto coturno literário que amplamente justificou.

***


publicado por assismachado às 19:14
link do post | comentar | favorito
|

A TRIBUNA DOS POETAS - GRACIETT VAZ E EUGÉNIA CHAVEIRO
RUMO AOS NOSSOS FADOS

Por
Graciett Vaz


Se nossos segredos não contamos
por opressão dos mortais nos destruímos
vamos morrendo naquilo que sentimos
e deixamos de estar onde estamos.

Assim vivemos uma vida onde não reflorimos
envolvidos nas formas que inventamos
arranjamos cicatrizes em pontos extremos
e sem querer aos poucos e poucos nos perdemos.

Não sejamos escravos dos nossos segredos
não ponhamos água fria na fogueira
não vivamos presos a tempos passados.

Apregoemos a justeza do amor à nossa maneira
enleados no rumo dos nossos Fados
e sejamos felizes até que Deus queira.

*

CRIANÇA

Por
Eugénia Chaveiro


Nasceste és uma flor
és fruto do amor
amor podes dar
mostrarás ao mundo
que os momentos lindos
não podem transformar
nem em lágrimas, nem fome,
onde a guerra não dorme
num grito fecundo
alerta a Humanidade
não quero ouvir gemidos
quero cantar o hino à liberdade!


In “Degrau para um horizonte”


publicado por assismachado às 19:11
link do post | comentar | favorito
|

A TRIBUNA DOS POETAS - PERPÉTUA MATIAS E AMÉLIA MARQUES
MAGIA

Por
Perpétua Matias

Guitarra tanta magia
encanta-me o teu trinado
pões tristeza e alegria
mistério neste meu fado.

Por mau agoiro do destino
a sorte me desampara
acalenta-me o teu hino
tão bem que tocas guitarra.

São mais pequenas as horas
se acompanhas meu pranto
se choro, comigo choras,
minh’ alma não sofre tanto.

O teu soluçar baixinho
meu sofrimento conforta
é um bater de mansinho
uma esperança à minha porta.

*

ILUSTRE ROSEIRA

Por
Amélia Marques

Pelo aniversário de América Miranda,
fundadora e Presidente da Tertúlia.


Mais uma Primavera passada
cheia de vida e esplendor,
por todos nós desejada
com saúde, paz e amor.

Maio, o mês de lindas rosas,
cada qual de sua cor,
inspiram a lindas prosas
e a poemas de amor.

Não há rosas sem espinhos
nem roseira sem rosa,
os chuviscos miudinhos
fazem dela a mais formosa.

**


publicado por assismachado às 19:06
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

A VOZ POÉTICA DOS TERTULI...

TERTULIANOS LAUREADOS - M...

A TERTÚLIA NO FACEBOOK

POEMAS DE GOETHE

O SÉCULO DE BOCAGE

POETAS DO FUTURO

OS AMIGOS DE ITÁLIA

TERTÚLIA ANUAL DE HOMENAG...

COLABORAÇÃO POÉTICA

TRIBUNA DOS TERTULIANOS

arquivos

Outubro 2017

Setembro 2012

Maio 2012

Setembro 2011

Agosto 2011

Dezembro 2009

Setembro 2009

Julho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds