ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
LAUDATE CESARINY ! O PRÍNCIPE SURREALISTA ...


MÁRIO CESARINY
 
Nascimento:
1923 Lisboa
Época:
Surrealismo
País:
Portugal

            Poeta e pintor português, natural de Lisboa. A sua formação artística inclui o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroyo e estudos na área de música, com Fernando Lopes Graça. Mais tarde, viria a frequentar a Academia de La Grande Chaumière, em Paris, cidade onde conheceu André Breton, em 1947. Rapidamente atraído pelas propostas do movimento surrealista francês, tornou-se um dos mais importantes defensores do movimento em Portugal. Ainda nesse mesmo ano, integrou de corpo inteiro o Grupo Surrealista de Lisboa.
            Mário Cesariny, figura sempre inquieta e questionadora, afastava-se assim, de maneira definitiva, do movimento neo-realista. Passou a adoptar uma atitude estética de constante experimentação, logo visível nas suas primeiras colagens e pinturas informalistas realizadas com tintas de água, e distribuídas no suporte de forma aleatória. Seria este princípio anárquico que conduziria a obra de Cesariny ao longo da sua vida.
            Na sua produção poética, que o autor considerava construir a partir deste desregramento inicial das suas experiências na pintura. A continuidade das suas práticas literárias e plásticas levá-lo-ia, portanto, a seguir uma corrente gestualista, por vezes pontuada de um corrosivo humor. Dinamizador da prática surrealista em Lisboa, Cesariny iria criar «antigrupos», com a mesma orientação mas questionando e procurando um grau extremo de espontaneidade, tentativa essencialmente visível na sua obra poética.     Participou, em 1949 e 1950, nas I e II Exposições dos Surrealistas, pólos de atenção e atracção de novos pintores, mas ignoradas pela imprensa.
            Crescentemente dedicado à escrita, Cesariny viria a publicar as obras poéticas Corpo Visível (1950), Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952), Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (1953), Manual de Prestidigitação (1956), Pena Capital (1957), Nobilíssima Visão (1959), Poesia, 1944-1955 (1961), Planisfério e Outros Poemas (1961), Um Auto para Jerusalém (1964), As Mãos na Água a Cabeça no Mar (1972), Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972), Titânia e a Cidade Queimada (1977), O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras (1989), e a obra de ficção Titânia (1994).
            A edição da sua obra não segue linearmente a cronologia da sua produção. “Corpo Visível” é o volume em que as características surrealistas são já dominantes — em textos anteriores, a denúncia social aproximava-se, por vezes, do neo-realismo, embora já em “Nobilíssima Visão” esta escola fosse objecto de um olhar crítico. O humor, o recurso ao non-sense e ao absurdo, são marcas da escrita de Cesariny, de uma ironia por vezes violenta, que incide sobre figuras e mitos consagrados da cultura portuguesa e ocidental.
            Da sua obra escrita sobre a temática do Surrealismo, que analisou e teorizou em vários textos, fazem parte A Intervenção Surrealista (1958), a organização e autoria parcial da Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito (1961), a antologia Surreal-Abjection(ismo) (1963), Do Surrealismo e da Pintura (1967), Primavera Autónoma das Estradas (1980) e Vieira da Silva – Arpad Szènes, ou O Castelo Surrealista (1984).
 
                                                                                  Adaptação de Assis Machado
 
           POEMÁTICA
 
                 Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.
*
 
Ao longo da muralha

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor.

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além da azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
*

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
tua boca velada
é ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
do que o dirias.
O que és não vem à flor
das caras e dos dias.

Tu és melhor – muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
alma do corpo nu
que do espelho se vê.
 
*
 
"Eu, Sempre..."

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
tenho qualquer insuficiência nisto,
sou um romano da decadência total,
aquela do século IV depois de Cristo,
com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.


publicado por assismachado às 16:09
link do post | comentar | favorito
|

Terça-feira, 28 de Novembro de 2006
A TRIBUNA DOS POETAS - HELENA BANDEIRA E ARMANDO DAVID
MENINO DE OLHOS TRISTES

Por
Helena Bandeira

Menino tão triste,
que pouco falas
e tudo calas,
até a fome
que te consome...
Alguma vez sorriste?

Menino tão triste,
tens pai e mãe
ou ninguém?
Quando tens dor
recebes Amor,
ou ignoras que existe?

Menino de olhos tristes,
estarás só no mundo,
poço sem fundo,
que nada te dá,
que nada te dará...
e nem sabe que existes?!

Menino de olhos tristes,
colo, terás tido?
Carícias terás sentido?
Beijos, alguém te deu,
ou sequer prometeu?
Mas estás e resistes!...

Então, tenta crer
que não estás sozinho.
Que alguém virá
e te ajudará
com generosidade
e até com carinho!

*

NÃO SEI SE O AMOR EXISTE

Por
Armando David

Não acredito no amor
porque nunca o encontrei.
Terão outros seu favor?
Não sei!
Só sei que a vida levei
numa constante procura
desse amor, feito ternura.
Como sempre imaginei
mas, não tendo essa ventura,
meu coração fica triste.
Será que o amor existe?
Não sei !


publicado por assismachado às 19:39
link do post | comentar | favorito
|

Terça-feira, 21 de Novembro de 2006
CAMÕES, GRANDE CAMÕES - « APOLOGIA DO MODELO »


                                  

   «ENSAIO CRÍTICO ANALÓGICO»

                                                               Por 
                                                     Assis Machado

                                                                 ( 6ª )                       (10ª)
                           Camões, grande Camões, quão semelhante ( a )
                           Acho teu fado ao meu, quando os cotejo! ( b )
                           Igual causa nos fez, perdendo o Tejo, ( b )
                          Arrostar co' o sacrílego gigante; ( a )

                          Como tu, junto ao Ganges sussurrante, ( a )
                          Da penúria cruel no horror me vejo; ( b )
                          Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, ( b )
                          Também carpindo estou, saudoso amante. ( a )

                          Ludíbrio, como tu, da Sorte dura ( c )
                          Meu fim demando ao Céu, pela certeza ( d )
                          De que só terei paz na sepultura. ( c )

                          Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!... ( d )
                          Se te imito nos transes da Ventura, ( c )
                          Não te imito nos dons da Natureza. ( d )


                                         Barbosa du Bocage 
                                         In RIMAS
 


                                                                     I

Temos perante nós um dos mais emblemáticos e, provavelmente, um dos mais conhecidos e estudados poemas de Bocage. Esta forma e modelo de poesia é designada em todos os tratados literários universais de “Soneto”.
O Soneto (originariamente o vocábulo significava "pequeno som") é um tipo de poesia de forma fixa, ou seja, utiliza métrica (medida dos versos), esquema de rimas (forma de terminação de cada verso) e a cadência dos vocábulos (ritmo).
É geralmente composto, na sua forma textual, por 14 (catorze) versos, distribuídos por duas quadras e dois tercetos (soneto italiano). Modernamente há mais umas tantas disposições esquemáticas, todavia interessa-nos aqui a forma convencionalmente apelidada de “clássica”, que é o presente caso que nos ocupa.
O Soneto clássico integra versos decassílabos (dez sílabas poéticas) ou dodecassílabos, também chamados de alexandrinos (doze sílabas poéticas).
Também aparece muito sob a forma de 03 (três) quadras e 01 (um) dístico (dois versos). É o clássico soneto inglês ou Shakespeareano.
O esquema mais frequente de rima apresenta-se da seguinte forma: abba – abba – cde – cde. Este é o modelo comum chamado “italiano”.
Quanto às terminações dos versos existem variantes, um pouco ao sabor da inspiração e da sensibilidade estética de cada poeta.
Recordo que, na forma como estão dispostos, chamamos aos versos “a ... a” interpolados; aos versos “bb” emparelhados e aos versos “c,d,c”/ ”d,c,d” cruzados.
Na moderna poética tem-se cultivado o “soneto branco”, isto é, com catorze versos sem rima mas com métrica (versos decassilábicos e alexandrinos).
Relativamente à cadência (ou ritmo) lembramos que as formas mais convencionais, desde os tempos do seu aparecimento, são as que respeitam em cada verso a acentuação na 6ª e 10ª sílabas – versos heróicos – ou nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas – versos sáficos.
Quanto ao nosso caso, vejamos :
a) Estrutura textual : duas quadras (quatro versos cada) e dois tercetos (três versos cada)
b) Forma rimática : a,b,b,a / a,b,b,a / c,d,c / d,c,d //
c) Forma cadencial : 6ª e 10ª sílabas, portanto, versos heróicos.
Chamo apenas a atenção para alguns artifícios/técnicas do poeta – o que poderá ser entendido como virtuosismo rítmico. Refiro-me às “sinalefas” ou às “sinéreses”.

SINALEFA é o nome que se dá ao recurso que o poeta usa para juntar a última vogal de uma palavra com a primeira vogal da palavra seguinte, formando uma só sílaba.
SINÉRESE é o nome que se dá ao recurso que o poeta usa para juntar numa só sílaba, as vogais que, dentro da palavra, gramaticalmente seriam contadas em separado.

A aparente rigidez de seus traços formais possibilitou ao Soneto chegar praticamente incólume até à actualidade. Raras excepções o modificaram para lá das formas originais que lhe deram os seus primeiros cultores: Dante, Petrarca, Sá de Miranda, Camões, Shakespeare e outros grandes clássicos.
Terá sido Francisco Petrarca quem mais contribuiu para a sua difusão pelo Ocidente Europeu.
Houve uma fase de grande desinteresse por esta forma poética. No Século XVIII poucos foram os seus cultivadores na Europa. O nosso Bocage foi uma das raras e brilhantes excepções. Todavia há um grande ressurgimento do Soneto, no Século XIX, por influência dos grandes românticos, parnasianos e simbolistas que dele se serviram com mestria. Chegado até ao Século XX veio a sofrer grande desgaste com o desprezo a que foi votado pelos modernistas – a chamada revolução do verso livre. Mas por mais estranho que pareça e contrariamente a todas as previsões de críticos literários, que lhe entoaram o “fines diae”, até alguns dos mais radicais modernistas e muitos dos actuais pós-modernistas têm contribuído para a sua regeneração e resistência. Temos alguns casos de poetas portugueses que se distinguiram neste nobre estilo. Refiro-me a Florbela Espanca, Teixeira de Pascoaes, Jorge de Sena e até o próprio Fernando Pessoa o praticou com algum sucesso. Nos nossos dias todos sabemos que grassa novamente um enorme vazio no que diz respeito à arte do Soneto. Uns porque não gostam de facto dele e o desprezam, outros porque o desconhecem e outros, ainda, por falsa postura intelectualóide: dizem que não fazem sonetos porque estão fora de moda. Quanto a nós pensamos que o que existe verdadeiramente é um gritante défice de honesto e aturado estudo, já para não falar de engenho – coisa rara nos tempos que correm. 

                                                                II

Bocage versejou de muitas e variadas maneiras mas onde atingiu a sua melhor perfomance foi no Soneto. Célebres poetas e amantes deste mesmo estilo afirmaram ter sido Bocage o melhor de todos em Portugal, incluindo Camões. E foi de facto com o génio lusitano que Bocage competiu. Competiu no sonho, competiu em honesto e aturado estudo e até, por força do destino, na sua estranha forma de vida.
Não obstante a formação humanística de base de cunho neo-clássico, no que diz respeito à sua obra poética, a sua intensa e vincada personalidade, a frequente violência do seu temperamento inconfundível, matizado por uma profunda e indelével sensibilidade, a auto-dramatizada obsessão face ao destino e à morte, denunciaram e anteciparam a era Romântica.
Poderemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a parcela mais genuína da sua obra é aquela que pode ser denominada de pré-romântica. Toda a sua poética demonstra um mundo muito pessoal e subjectivo da paixão amorosa, do sofrimento e da morte, marcas incontornáveis de génios predestinados.
E se ele, como sabemos, muito foi censurado e perseguido deveu-se, em grande parte, ao espírito mesquinho e obscuro da sua época. É que o poeta, com admirável perspicácia e intuição, punha o dedo acusador nas chagas sociais de um país de aristocracia decadente, aliada a um clero de corrupta índole.
Comprometidas ambas as classes com uma política interna e externa anacrónica para aquele momento restava aos cidadãos de boa fé uma vivência passiva e inócua e aos poetas e artistas uma resistência a toda a prova.
Também, descobre-se ali presente a exaltação do amor físico o qual, inspirado no modelo natural, e nas virtualidades do quotidiano citadino, afasta para longe todo o platonismo fictício de uma sociedade que via pecado e imoralidade em tudo o que não fosse convenientemente disfarçado. 

                                                                    III

E que diremos, então, nós sobre a presente comparação que Bocage faz neste Soneto “Camões, grande Camões...”, pondo-se em destaque com o seu modelo preferido?
Talvez o que Bocage admirasse realmente em Camões fosse o lado "romântico", num sentido amplo da palavra, da sua vida, do seu "fado", e o seu temperamento individualista e inconformista, no que sentia alguma semelhança consigo próprio: ambos incompreendidos, votados ao esquecimento, marginais perseguidos pela sociedade:

                                         Camões, grande Camões, quão semelhante 
                                         Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Começarei, primeiramente, por destacar uma identidade e personalidade sui generis , obviamente genuína, que o coloca objectivamente passível de comparação.
Enquanto o romantismo de Camões foi subordinado pelo domínio da razão, que o classicismo maneirista impunha, Bocage – o poeta do Amor e da Liberdade – consegue sacudir as razões da razão e, embora diversificado na forma, dá livre curso ao potencial emotivo que o seu Eu possuía.
Analisando, mesmo ao de leve, o Soneto em epígrafe, direi que poderemos destacar, por exemplo, o tema. O tema é o descontentamento por se igualar a Camões apenas na infelicidade.
Mais direi que se destacam duas partes lógicas, o estado psicológico do poeta , a análise estilistica e quais os aspectos da sua vida que Bocage considera serem comparáveis aos da vida de Camões:
a) A 1ª Parte (versos 1 a 11) - O sujeito poético faz uma enumeração dos aspectos semelhantes com Camões;
b) 2ª parte (versos 12 e 14) - inesperadamente, dá conta do desgosto que sente por apenas se assemelhar ao génio nas desgraças.
O “estado psicológico” do sujeito poético sobressai pela constatação que várias semelhanças fazem sentir, ao sujeito poético, um certo conforto, na medida em que considera que alguém tão célebre e digno de mérito ("grande Camões”) teve uma existência e passos da sua vida idênticos aos seus, afirmando mesmo que Camões foi um modelo para si (v. 12).
0 sofrimento, causado pela sua vida de infortúnio, dor e desgraça é atenuado pelas semelhanças detectadas com Camões (embora deseje pôr fim a tanta infelicidade - vv. 10-11), pois é apenas no último terceto que o sujeito lírico realça o sentimento de tristeza ao dar-se conta de que o destino apenas o fez parecer-se com Camões nos aspectos negativos (vv. 12-13), não naquilo que Camões teve de grandioso, de extraordinário - o dom para a poesia (escrita). No verso 12, a exclamação completando o sentido da interjeição “Oh” confere um tom de desânimo, frustração às palavras que a seguir são proferidas.
Em poesia a expressão configura a forma, o ritmo, a sonoridade, o emprego das imagens ou das metáforas, a escolha das palavras ou das frases. É claro que o estilo também condiciona a forma, na medida em que lhe coloca marcas entre as quais o poema se vai desenvolver (isto é mais significativo no caso do Soneto).
Reparemos agora noutras particularidades:
Recursos estilísticos: a conjunção “Mas"; a apóstrofe; a repetição, o uso anteposto do adjectivo '”grande"; a metáfora (v. 4); a adjectivação expressiva (v. 5); o trocadilho (v. 7); o paralelismo antitético. Justificados pela maior expressividade dos versos requerida obviamente pelo poeta.
Aspectos semelhantes entre Bocage (motivo romântico: centralização na identidade do Eu) e Camões:
                                                         - o mesmo fado;
                                                         - a partida de Lisboa provocada por motivos semelhantes;
                                                         - o encontro com o Adamastor;
                                                         - a estada e a miséria na Índia;
                                                         - as saudades da amada; 
                                                         - o ludíbrio da sorte.

Bocage afirma-se um seguidor de Camões: imitou-o na vida, entre Lisboa e a Índia, mas não conseguiu imitá-lo na capacidade de poetar. Crê-se marcado por um destino semelhante, que o levou para longe da Pátria, a saudade e a desventura; com Camões parece ter aprendido a arte do Soneto e, talvez, algumas atitudes mais conotadas com a sua personalidade.
Competindo, assim, com Camões ('Camões, grande Camões, quão semelhante / Acho teu fado ao meu, quando os cotejo') Bocage conseguiu ser um dos maiores poetas da Literatura Portuguesa, trazendo a poesia lírica para o plano terreno, quotidiano e burguês. De pés cravados no solo, agitava-o uma “doença cultural” que principiava a contagiar os espíritos mais sedentos de novos caminhos: a ânsia metafísica. Com efeito, sendo um sequioso de metafísica, sentiu-se impossibilitado de superar o fascínio que em sua imaginação e sensibilidade exerciam os estímulos da vida terrena. Por outro lado, Camões deambulava em esferas metafísicas, incapaz de ajustar-se ao mundo contingente; todavia, mesmo quando se sentia 'bicho da terra, vil e pequeno', a sua visão permanecia transcendental. Assim a poesia de Bocage irrompendo das vísceras, do sangue, dos ossos, entranha-se em sentimentos menores que procuram ardorosamente escapar de seu círculo de fogo e ascender para as regiões etéreas. Resumindo, para Camões a terra significava a dimensão do existir, ou do não-ser: para Bocage, seu terreno próprio e definitivo... Para o luso Príncipe dos Poetas, os espaços sobrenaturais constituíam a morada do ser, enquanto para o Vate Sadino se afiguravam o símbolo perfeito do inatingível.
Quando Bocage morreu, o solo já estava preparado para o advento das verdades novas trazidas pelo Romantismo. Se o seu ensinamento não foi imediatamente aproveitado, se a sua obra não foi de pronto erguida ao plano em que se encontra hoje – para gáudio dos seus imensos simpatizantes, como nós – é porque a sua língua destemperada tinha feito das suas. 


                                                               F I M



publicado por assismachado às 19:05
link do post | comentar | favorito
|

A TRIBUNA DOS POETAS - LOBO MATA E EUGÉNIA CHAVEIRO
                            LIBERDADE


Quem disse ao sol para deixar o azul do céu
e à lua que se escondesse no (fundo) mar
não queria saber quanto da vida se perdeu
pelos vindouros; querendo vos encontrar.

E desse encontro libertador renasceu
qual destino premonitório em tal lugar
rica e linda águia que demónios venceu
bem como a angústia no manifesto olhar.

Angústia altaneira qual voo de condor
dominando ciprestes entre montanhas
planando livremente, voando sem temor.

Anulando, assim, destemidamente a dor
libertada das espremidas entranhas
por amor; feita de amor; sem ódio; desamor.


Lobo Mata
In POEMAS MEUS, Lv. II

*

A FONTE E O LAGO


Meu menino, meu Diogo
verde relva, meu valado
és mar que cheira a iodo
e tens a beleza dum lago...

Lago à beira duma fonte
passarinhos vão beber
cheirando a urze do monte
de manhã ao sol nascer.

Sol que vai abraçar
a urze cheia de abelhas
que o pólen vão deixar
nos teus olhos que são estrelas!...


Eugénia Chaveiro
In DEGRAU PARA UM HORIZONTE


publicado por assismachado às 11:16
link do post | comentar | favorito
|

É HORA DE PROSA ! - PERPÉTUA MATIAS
DOIS SÓIS
 
Era Primavera. Os passarinhos faziam seus ninhos, esvoaçavam numa azáfama constante com seus trinados de liberdade sadia.
Os pardais, em bandos, faziam sombras sobre os verdes trigais, as andorinhas traziam bocadinhos de barro nos bicos, assim faziam os seus ninhos debaixo dos beirais dos telhados.
As abelhas, num vaivém de flor em flor, era vê-las num zumbido musical levando pólen para o mel que só elas sabem fazer. Ao longe uma nuvem muito escura de um cinzento assim como que a atirar para o lilás contrastava com as lindíssimas cores do arco íris de sublime beleza. Lá estava enfeitando o universo na sua imponente realeza. Escondido, o sol atrás das nuvens refletia tantas e variadas cores como se Deus com a Sua própria mão ali fosse pintar o maior e mais lindo quadro do mundo inteiro.
Caiu a noite, o vento veio de mansinho fazer a sua ronda, trazia um sussurrar de carinho. Devagar, empurrou a nuvem escura e logo a lua espreitou, reflectiu sobre a terra aquele luar de luz resplandecente nos valados.
Entre os arbustos silvestres, rouxinóis trinavam suas canções, o campo era verde, o vento passou leve e foi dormir, as estrelas começaram a brincar às carreirinhas pelas clareiras do azul do céu.
Ao ver tanta beleza que só Deus nos pode dar senti uma imensa felicidade, mas aí pensei: Deus, que me deu a vida, deu-me tudo, cresci sem pensar, sem cuidados e agora ? Que faço da vida? Senti um vazio, já não era menina, tive a impressão que o mundo não me interessava, era tudo tão lindo mas eu não tinha nada.
Foi então que Deus me mandou lá do céu duas estrelas, tão belas como dois sóis, sóis que me iluminaram o caminho e aqueceram a minha alma, refrescaram a minha mente. Deram-me tanta felicidade, toda a razão de viver, dois sóis que amo eternamente. Abraço-os quando estão perto e se estão longe, em pensamento.
 
 
Perpétua Matias
In VOAR LIVREMENTE


publicado por assismachado às 11:10
link do post | comentar | favorito
|

A TRIBUNA DOS POETAS - AMÉRICA MIRANDA E FRASSINO MACHADO

 INCONSTÂNCIAS

Por
América Miranda

Ansiando um beijo teu
com os espaços sem fim
e quando o beijo foi meu
não teve interesse p’ ra mim.

E agora eu ando louca
querendo o teu beijo ardente
e a minha vida é tão pouca
p’ ra esperar eternamente.

E esse beijo ansiado
que uniu teus lábios aos meus
embora fosse pecado
foi uma benção dos céus.

*

PARA TI, QUERIDA


Estas flores que te dou
meu amor levar-te-ão
o calor que germinou
dentro do meu coração.

Com elas vai o perfume,
recordações acrescidas,
queimadas em brando lume
mas agora renascidas.

Junto a elas deixo a luz
e a crença que a alma tem
p’ la vida que já vivi...

Teu destino me conduz
fazendo crescer também
este meu amor por ti !


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA



publicado por assismachado às 10:48
link do post | comentar | favorito
|

Quinta-feira, 9 de Novembro de 2006
UMA ÁRVORE, UM FILHO, UM LIVRO !

 

                             

Por
Assis Machado

Lançamento de “CORPO AUSENTE”, de Helena Bandeira

Helena Bandeira, Lisboa, membro efectivo da TERTÚLIA POÉTICA AO ENCONTRO DE BOCAGE.
Lançou hoje um Livro de Poemas – CORPO AUSENTE – no auditório da Junta de Freguesia de São João de Brito. Estiveram presentes, além de muitos amigos da poetisa, como América Miranda e outros, muitos tertulianos e o actor João de Carvalho.
Abriu a sessão João de Carvalho que, com toda a sua mestria, fez a leitura de alguns poemas da obra em epígrafe. O público aplaudiu com entusiasmo. Em seguida América Miranda falou sobre a autora e a obra de Helena Bandeira, bem assim o editor da Palimage Editores. Seguidamente e, para agrado do público presente, América Miranda recitou alguns poemas da autora que, na sessão de autógrafos muito teve de dar à caneta – tão grande a afluência de compradores do seu livro. A sessão terminou, como não podia deixar de ser, com um porto de honra.
Parabéns à nossa autora por parte de toda a Tertúlia Poética !

                              PENSANDO EM TI ...

                              Pensando em ti,
                              eu, que para ti nasci...

                              Pensando em ti,
                              e no que contigo vivi... 

                              Pensando em ti,
                              e no que por ti sofri...

                              Pensando em ti,
                              pensando em mim,
                              pensando em nós...

                              E novamente, 

                              pensando em ti,
                              querendo esquecer que te perdi...~ 
                              mas em ti pensando logo após...

                              Imediatamente,

                             te sinto me amando,
                             e a minha dor beijando...

                             Como num ritual divino
                             que me afaga,
                             que assim apaga,
                             e até esconde a minha dor...

                             E todo o meu ser eu ilumino... 
                             conseguindo sentir o teu ardor,
                             do teu sensual beijo o sabor,
                             e toda a loucura do nosso Amor...

                            Então, saudosamente, 
                            mas mais serenamente.

                            Fico te sentindo e...
                            PENSANDO EM TI !


                           Helena Bandeira, 
                           In CORPO AUSENTE

 



publicado por assismachado às 22:30
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

Terça-feira, 7 de Novembro de 2006
A OUTRA VISÃO

 


                         Por
                  Félix Heleno


Ver historicamente uma verdade
é ter de acreditar mesmo sem ver.
Se nunca vi Camões na realidade
não o posso negar, mas posso crer.

Quem acredita em Deus sem O ter visto
vê muito mais além, noutra visão.
Assim consegue ver o próprio Cristo
na Sua transcendente dimensão.

Basta de O ver só acabrunhado
basta de O manter crucificado.
Assim nunca mais finda a Sua dor.

Basta de ficar só nessa história.
é tempo de cantar, gritar glória
e cantar mais alto ainda o Seu esplendor!


Félix Heleno
In “Grão de Pó em Sono Etéreo”


publicado por assismachado às 11:10
link do post | comentar | favorito
|

O NOSSO FADO
 


Por
António Sala


O nosso Fado que parece desgarrado,
e quantas vezes é cantado sem ter tom.
O nosso Fado que parece amargurado
é uma guitarra de gemidos sem ter som.

Cantei-te muitas vezes ao sol posto.
Tu cantavas à noite só p’ ra mim.
Transformámos a vida em desgarrada
às vezes só cantada assim, assim.

Fado vadio, muitas vezes só de amor.
Fado corrido, muitas vezes por ser dor.
Mas Fado alegre, contente por te ter,
Fado amargura, pensando em te perder.

Fado vadio que eu sou e não mereces.
Fado corrido teu corpo que apetece.
Mas Fado alegre ter-te bem junto a mim.
Será sempre cantado assim, assim.

Um Fado com guitarras de ternuras
mas também com picadinhos de amargura
desgarradas dizendo que é tão bom
afinar e cantarmos num só tom !


António Sala
In “Palavras despidas de música”


publicado por assismachado às 10:59
link do post | comentar | favorito
|

BOCAGE E OS SEUS ABRIGOS
                                     

Por
Fernando Eloy do Amaral

Bocage chegara a Lisboa. O sonho da Índia e das suas glórias, os famosos feitos, a riqueza adquirida, as longas epopeias escritas, foram nuvens desfeitas pelos ventos da realidade prosaica, pela mesquinhez do tempo, pelas torpes invejas, pela nobreza nunca subserviente do orgulho inerente ao génio ansioso de liberdade e grandeza.
Bocage chegara finalmente à capital do Reino alquebrado e desiludido, com versos de oiro, saudades e anseios de novos ares. A desilusão amorosa, o ressentimento sentido pelos seus familiares, a falta de proventos, levaram-no à conclusão de que estava só, que o seu Fado teria de ser simplesmente o capricho de um destino.
Bocage apenas possuía o génio e os seus frutos, alguns amigos dedicados que o receberam delirantemente, manifestações populares e admiração de eruditos. Porém, se o seu espírito tinha abrigos noutros espíritos superiores e nas almas singelas, o seu corpo, revestido de vestes sem beleza, não possuía o abrigo, o recanto, embora modesto, para descansar fadigas, para restaurar noitadas.
Bocage, o sem abrigo, teve de aceitar, de cabeça erguida, o albergue que lhe era dado pelos admiradores do seu génio, pelos amigos mais afortunados de bens materiais ou ébrios de poesia como ele, mas que tinham lugar para dormida e retempero corporal. Antes de arranjar casa própria Bocage andou à deriva, ora aqui, ora ali, pernoitando nos sítios mais diversos. Assim, Bocage passava as noites na cela de um frade versejador, no conventículo da Boa Hora ou dos Paulistas, com o Frei João de Pousafoles, compartilhando pousada com José Agostinho de Macedo, admirador confesso do seu génio antes da inveja desabrochar nele, na botica do Azevedo onde escrevia versos nas paredes, na casa de um amor passageiro e nas noites em que se deixava adormecer depois dos improvisos e da genebra, no Café Nicola, onde ficava sob os zelosos cuidados do sempre fiel amigo e fanático adorador José Pedro da Silva.
Quando da sua prisão, a bordo da corveta Aviso, vivia o famigerado poeta com o cadete do Regimento da Armada André da Ponte do Quental na Praça da Alegria, onde primeiramente o foram procurar os “moscas” do Senhor Intendente que lhe vasculharam os papéis e levaram o leal amigo como cúmplice de ideias revolucionárias de grande perigo para a mansidão do Reino.
Morava o poeta no Terreiro quando da sua ida para o Hospital Real de São José onde ficaria uns dias a curar-se de doença secreta. Alguns foram os amigos que lhe proporcionaram conforto mais duradouro e familiar.
José Salinas de Benevides hospeda por uma temporada o poeta na sua casa de Santarém. A família Bersane Leite acarinha o Vate, tão apreciado, com requintes de afeição aplicável a criança mimada e convalescente. Tomé Barbosa abre-lhe as portas de sua casa onde Bocage permanecerá algum tempo descuidado ou, melhor, somente preocupado com a sua Musa.
Nas várias visitas que gostava de fazer aos arredores de Lisboa, Bocage encontrava sempre um recanto onde ficar e amigos satisfeitos com a sua presença. Pouco antes de falecer, esteve Bocage hospedado em casa do Conselheiro José Andrade de Carvalho, na Calçada de Santo André, indo depois para a sua residência, que então já possuía, quando a doença lhe tornou a existência mais tormentosa.
Dos muitos abrigos de Bocage, não falando na casa onde nasceu e viveu menino e moço, numa casa situada em Almada onde com sua família passou alguns anos da sua infância, resta-nos recordar a da rua das Violas, no Sítio da Ilha Seca, quando da breve estada no Rio de Janeiro e aquela, de curiosa arquitectura, que habitou quando em Damão.
Bocage, o sem abrigo, resolve em 1802 arranjar casa própria, mais para abrigar a dedicada irmã Maria Francisca e sua sobrinha, do que o seu corpo prematuramente envelhecido. A sua casa é agora a da Travessa André Valente onde a morte o foi encontrar lúcido de espírito, pujante de génio e fisicamente arruinado.
No dia 22 de Dezembro de 1805, o dia seguinte do passamento do genial Poeta Bocage encontra a definitiva morada, o derradeiro abrigo, num singelo coval do Cemitério das Mercês, tão próximo da última residência quando vivo.
Bocage, hoje, mora na mente e nos corações dos que sentem a Poesia, abriga-se na simpatia popular e na admiração insuspeita dos eruditos.


publicado por assismachado às 10:52
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

TERTULIANOS LAUREADOS - M...

A TERTÚLIA NO FACEBOOK

POEMAS DE GOETHE

O SÉCULO DE BOCAGE

POETAS DO FUTURO

OS AMIGOS DE ITÁLIA

TERTÚLIA ANUAL DE HOMENAG...

COLABORAÇÃO POÉTICA

TRIBUNA DOS TERTULIANOS

LUGAR À PROSA LÍRICA

arquivos

Setembro 2012

Maio 2012

Setembro 2011

Agosto 2011

Dezembro 2009

Setembro 2009

Julho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds