ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006
FALAM OS ENTENDIDOS SOBRE BOCAGE
BOCAGE E VOLTAIRE, OUTRA VEZ
Adelto Gonçalves*

Se o XIX foi um século húmido, como constatou Virginia Woolf (1882-1941), ao descrever uma Grã-Bretanha em que a humidade doía-lhe até nos ossos, o XVIII foi luminoso, o século das Luzes, de Voltaire (1694-1770), Montesquieu (1698-1755), Rousseau (1712-1778), Diderot (1713-1784) e outros pensadores. Por isso, como qualquer outro bom poeta setecentista, Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) foi marcado pela França.
Descobrir as influências que recebeu do pensamento francês foi o que levou a pesquisadora belga Florence Jacqueline Nys a escrever As fontes francesas das Cartas de Olinda e Alzira de Bocage, sua tese de mestrado em Língua e Literatura Francesas, defendida em 2003 no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho e publicada em 2005 pelo Centro de Estudos Humanísticos da mesma instituição em sua coleção Hespérides.
Não é de hoje que se desconfia de que Cartas de Olinda e Alzira, atribuídas pela crítica a Bocage, sejam de outro autor e, portanto, uma tradução bocagiana, como já havia assinalado Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876), autor do Dicionário Bibliográfico Português. A verdade, porém, é que ninguém, até hoje, conseguiu colocar a questão em pratos limpos.
A partir daí, Florence Nys, com o objetivo de alimentar a tese da paternidade de Bocage, decidiu assinalar as afinidades entre Cartas de Olinda e Alzira e outros textos bocagianos, como a Epístola a Marília, também conhecida como Pavorosa Ilusão da Eternidade, e duas traduções, Eufrásia a Melcour e Eufrásia a Ramiro, extraídas das Lettres d´une chanoinesse de Lisbonne à Melcour, officier français, do poeta Claude Joseph Dorat. Para a estudiosa, Bocage terá utilizado a forma do romance epistolar em verso delineada por Dorat, de quem foi tradutor, além de ter sido inspirado pela literatura pornográfica francesa, “à qual terá tido acesso através de diversas redes clandestinas”.
Como se sabe, Cartas de Olinda e Alzira envolvem duas personagens femininas que mantêm uma correspondência contínua sobre o mesmo assunto: o amor carnal. É um texto que está muito próximo da filosofia libertina veiculada pelos escritores franceses do Iluminismo. Como lembra Florence, em uma das cartas, a sexta, Olinda condena a literatura obscena trazendo à cena “uma Teresa” e “outras tais francesas”.
Com visão percuciente, a estudiosa não deixa de lembrar que Bocage traduziu excertos de La Henriade e outras epopéias comentadas por Voltaire, além de ter incluído uma citação do filósofo em muitas de suas produções. Para ela, além da admiração por Voltaire, talvez Bocage tenha imaginado provar que seria capaz de produzir textos tão bons ou mesmo superiores aos do filósofo francês.
O que intriga mesmo é que Cartas de Olinda e Alzira não façam nenhuma referência explícita à realidade portuguesa da época, mas antes à mitologia, à história romana e à literatura francesa. Sem dúvida, este é um indício que reforça a hipótese segundo a qual Bocage teria traduzido um original de Voltaire.
Pode-se alegar que a pressão da censura teria levado Bocage a omitir qualquer referência à realidade portuguesa, mas o certo é que poesia licenciosa era escrita para ser lida na clandestinidade e não para ganhar letras de imprensa. E muito menos para passar pelo crivo da censura. Nesse caso, o argumento pouco vale. Tanto que, há pouco mais de quatro décadas, em 1965, uma antologia preparada por Natália Correia, que incluía Cartas de Olinda e Alzira, foi apreendida e condenada pela censura salazarista.
Seja como for, como até hoje não se encontrou o presumido original voltaireano, a questão continua em aberto, o que, por outro lado, suscita excelentes trabalhos de análise e investigação como este de Florence Nys.
Na introdução que escreveu para o volume VII da Obra Completa de Bocage: Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (Porto, Edições Caixotim, 2004), às págs. XXXIII e XXXIV, o rigoroso pesquisador Daniel Pires diz que a composição Cartas de Olinda e Alzira “apresenta inequívocas ressonâncias da literatura erótica francesa”, argumentando que “suas afinidades com a Pavorosa Ilusão da Eternidade são evidentes”, o que bastaria para que caísse integralmente pela base a tese de que não são da lavra de Bocage, como advoguei em “Cartas de Voltaire atribuídas a Bocage”, artigo publicado no Suplemento Das Artes Das Letras de O Primeiro de Janeiro, do Porto, a 18/3/2002.
A alegação deste articulista, porém, não é fortuita. Foi feita com base em documento da secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa, o códice 10576, que leva o extenso título “Miscelânea Curiosa ou Colecção de diversas Poesias & vários Autores: a maior parte de Bocage, ou traduções originais; algumas de J.A.da C. (José Anastácio da Cunha) e outras por autores incertos e que não conheço; e juntas por José Câncio Ferreira de Lima em Coimbra (acabado e revisto em Março de 1825)”. Nesse códice, às fls. 81-112, estão incluídas “Cartas de Olinda a Alzira traduzidas de Voltaire por Manuel Maria Barboza du Bucage” (sic), como Pires devidamente assinalou em sua introdução.
É possível que esse contemporâneo do poeta tenha cometido algum equívoco e que Cartas de Olinda e Alzira sejam mesmo obra bocagiana, mas a verdade é que compará-las com a Pavorosa Ilusão da Eternidade também não prova nada, apesar do esforço louvável de Pires em mostrar que, “pelo estilo, pela temática tratada, por alguns versos que são em tudo idênticos aos da Pavorosa Ilusão da Eternidade, (os versos de Cartas de Olinda e Alzira) só poderão ter saído da pena de Bocage”. Aliás, o pesquisador Carlos Castilho Pais, da Universidade Aberta, diz em artigo recente que a Epístola a Marília é tradução parcial de Imitação (do poeta grego Alceu) de Parny (ver www.instituto-camoes.pt/CVC/olingua/08/lingua02.html ).
Tampouco o fato de o investigador não ter encontrado nada equivalente a Cartas de Olinda e Alzira entre as obras conhecidas de Voltaire prova coisa alguma. O que há é uma hipótese de trabalho que a própria pesquisadora Florence Jacqueline Nys comprometeu-se a investigar em arquivos franceses, depois de ter participado conosco do Colóquio Internacional Leituras de Bocage nos séculos XVIII-XXI, realizado ao final de novembro de 2005, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.Convenhamos: não é hipótese absurda a possibilidade de Cartas de Olinda e Alzira constituírem tradução de Voltaire. Aliás, não seria a primeira vez que se descobriria que um texto por décadas atribuído a determinado autor não passa de tradução. Recentemente, o professor francês Jean-Michel Massa, um dos maiores pesquisadores da obra e da vida de Machado de Assis (1839-1908), provou que Queda que as mulheres têm para os tolos, atribuído como da lavra do escritor brasileiro, é tradução do tratado De l´a amour dês femmes pour les sots (1859), de Victor Hénaux, originalmente publicada na revista A Marmota, do Rio de Janeiro, nos dias 19, 23, 26 e 30 de abril e 3 de maio de 1861. A única edição em livro foi produzida pela tipografia Paula Brito ainda em 1861.
A bem da verdade, diga-se que Machado de Assis nunca afirmou que aquele era trabalho de sua pena, mas críticos brasileiros concluíram que o mestre havia se enganado (?) e, por muitos anos, consideraram Queda que as mulheres têm para os tolos como uma autêntica obra machadiana. Vai saber...
______________________________
AS FONTES FRANCESAS DAS CARTAS DE OLINDA E ALZIRA, DE BOCAGE, de Florence Jacqueline Nys, tradução de Conceição Moscoso e Manuel Ribeiro. Braga: Centro de Estudos Humanísticos/Universidade do Minho, 102, págs., 2005.
_________________________________
* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br


publicado por assismachado às 21:56
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Sábado, 23 de Setembro de 2006
A "RENTRÉE" TERTULIANA

 

                                                        TERTÚLIA DOS TALENTOS

                                                                                   Crónica de
                                                                                   Assis Machado

Salve, Elmano Sadino – egrégio poeta lusitano – por mais esta Tertúlia ao Teu Encontro! Dia 16 de Setembro, do Ano da graça de 2006, às 17 horas, no Auditório de Benfica.
Podemos dizer com propriedade que, sem menosprezar todas as anteriores Tertúlias, esta terá sido – na opinião de testemunhas fidedignas – uma das melhores senão a melhor das Tertúlias a ti dedicada. Salve, ó Bocage!

Eram já quase dezassete horas e quinze minutos. Com o interior do Auditório Carlos Paredes, bem repleto de público entusiasmado, a digníssima apresentadora e poetisa América Miranda deu início ao espectáculo. Estavam presentes algumas figuras gradas da freguesia de Benfica, nomeadamente o senhor Presidente da Junta, a directora do pelouro da Cultura, o animador cultural da Junta, o actor João de Carvalho, algumas outras individualidades e muitos artistas que deram, todos eles, o seu melhor para o brilho da Sessão.
Assim evoluíram no palco, todos eles chamados e apresentados por América Miranda, coadjuvada e apoiada pelo actor e primo João de Carvalho.
Abriu a sessão a cantora Vânia Serrano que, não obstante a sua juventude, se exibiu em karaoque com elevada qualidade, que o público bem sublinhou.
Disseram poesia, a seguir, Celeste Reis, Frassino Machado e Amélia Marques que, com talento, dignificaram e louvaram o poeta Sadino.
Foi chamado, de seguida, o actor Fernando Marinho que apresentou a contento uma pequena récita que o público aplaudiu gostosamente.
Seguidamente tiveram lugar uns momentos de fado nos quais, com acompanhamento de um guitarrista e de um viola de baixo, se exibiram os fadistas Mário Rodrigues, Flora Silva e Esmeraldo Sampaio. O público gostou da sua alta competência e aplaudiu com esmero.
Dentro desta dinâmica entraram seguidamente os poetas Lobo Mata e América Miranda os quais, não deixando seus méritos por mãos alheias, tiveram excelente actuação tendo sido muito aplaudidos.
Chegou mais um momento musical da responsabilidade do professor Ângelo Rodrigues que, à viola, acompanhou com mestria a também jovem cantora Carla que interpretou duas cantigas românticas de excelente qualidade que foram muito apreciadas.
Seguiu-se mais um momento de ambiente poético pelas actuações dos tertulianos Graciett Vaz, Lourdes Agapito , Perpétua Matias e Domingos Vaz. Todos eles conseguiram dignificar com empenho o Vate Sadino. O público apreciou o seu desempenho.
Foi então chamado ao palco o cantor Francisco de Assis que, acompanhando-se à viola portuguesa, interpretou a contento duas canções de sua autoria que o público apreciou e aplaudiu.
Também, em seguida, subiram ao palco as poetisas Eugénia Chaveiro e Helena Bandeira e o poeta Fernando Marinho que, com todo o entusiasmo, exaltaram as virtualidades da arte poética, tendo sido bastante aplaudidos.
Para finalizar subiram ao palco a cantora Anabela Faria e o animador Mário Valejo que, com muita mestria, representou perante o público a figura poética e humana de Bocage, tendo o público delirado com esta surpresa.
Encerrou a Sessão América Miranda que enalteceu e agradeceu as actuações de todos, destacando com agrado todo o talento exibido. Da mesma forma agradeceu ao público o seu empenho, atenção e participação, deixando um voto a todos de que continuem a aparecer nestas Tertúlias para enriquecimento de todos. 

Assis Machado


publicado por assismachado às 07:40
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