ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Sexta-feira, 31 de Março de 2006
A TRIBUNA DOS POETAS - AMÉRICA MIRANDA E F. ELOY DO AMARAL
A MINHA PÁTRIA

Por
América Miranda

Oh, minha Pátria amada,
por todos tão devastada
Pátria onde eu nasci
cresci, amei e vivi,
onde vivo desolada
por te ver amargurada
Pátria do meu coração
Pátria da minha emoção
Pátria meu País tão desolado
Pátria revive e honra teu passado
eu te amo Pátria amada
e deito lágrimas de sangue
por te ver tão destroçada!

*

ETERNA IMENSIDÃO

Por
F. Eloy do Amaral

Bocage, mobilizas tanta Dama!
Com “cavalheiros”, ele, não quer nada.
Às Damas, vai dizendo uma piada,
dando, de Alma ardente, a sua chama.

Como o tão grande amor lhe deu a Fama
de Poeta com frase apaixonada,
sua Bela Poesia, inspirada,
ainda cai na alma de quem ama.

Bocage, excelso Vate, és lembrado
numa singela e rara Exposição
a pretender teu Estro divulgado.

Neste Mundo, de triste negridão,
o teu Nome será Iluminado,
brilhando na Eterna Imensidão.


publicado por assismachado às 15:48
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"QUEM SAI AOS SEUS ... NÃO DEGENERA !"
CLÁSSICO ALEXANDRINO

Por
Olavo Bilac

Já me não amas? Basta! Irei, triste e exilado
Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho…
Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado !

Em ti, como um vale, adormeci, deitado,
No meu sonho de amor, em meio do caminho…
Beijo-te ainda uma vez, num último carinho,
Como quem vai sair da Pátria, desterrado!

Adeus, corpo gentil, pátria do meu desejo!
Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,
Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!

Adeus! Esse outro amor há-de amargar-me tanto
Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,
Amassado com fel, embebido de pranto.


publicado por assismachado às 15:13
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EDITORIAL BOCAGEANO - EM LOUVOR DE BOCAGE !

Por
América Miranda

Bocage no seu padecer de amor foi sempre latino. Envolveu-se na teia de paixões impossíveis e pagou o preço alto daquilo que sonhou poder amar sem constrangimentos e sem limites.
Tantas vezes sentiu na carne os dardos do ciúme que passou a ver nele uma figura infernal, antro de todos os seus padecimentos e mágoas sem ter fim.
Muitos têm escrito sobre ele, mas nem todos conseguiram descrever a genialidade sem par deste Vate imortal e persistem em referir-se teimosamente
à parte erótica da sua obra, esquecendo em absoluto a beleza sem par da parte lírica.
Como lamento meu poeta preferido que após duzentos anos da tua morte, ainda façam chacota sobre a tua vida tão terrivelmente infeliz, mas plena de glória, saída do fulgor da tua pena Diamantina.
Da versatilidade do pensamento e da expressão resultou o conflito de toda a tua vida, todavia a posteridade consagrar-te-á como artista perfeito da escultura poética da língua portuguesa.

América Miranda



publicado por assismachado às 15:09
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Segunda-feira, 13 de Março de 2006
NEM SÓ DE POÉTICA VIVEM OS POETAS !

FÁBULAS DE BOCAGE

Esta cuidada edição de quatro dezenas de páginas é constituída por uma interessante selecção de onze fábulas e um epigrama bocageanos. A transcrição dos textos é enriquecida pelas belas ilustrações de Julião Machado, resultando um trabalho de apurado gosto gráfico. A oportuna introdução (pp. 3-6) e a actualização do texto tendo como base a edição comemorativa de 1905, confrontada com a edição original de 1799 e 1800 são da responsabilidade de Daniel Pires. Sendo um género cultivado desde a Antiguidade Clássica ( Esopo ) até aos Tempos Modernos ( La Fontaine ou Curvo Semedo ), o discurso poético da fábula, protagonizado por animais com atitudes e ditos antropomorfizados, adequa-se admiravelmente à veia satírica de Bocage, como nos lembra o organizador desta bela edição: "Curiosamente, Bocage só tardiamente cultivou a fábula, o que não deixa de ser surpreendente, pois trata-se de um género feito à sua medida, e sintonia com a sua proverbial irreverência e o seu espírito crítico". Duas edições de referência da obra poética bocageana ( Obras de Bocage, Porto, Lello, 1968, pp. 1103-1155; e Opera Omnia, Lisboa, Bertrand, vol. IV, 1972, pp. 176-212 ) registam 28 fábulas, originais ou traduzidas de La Fontaine. Curiosamente, tem-se assistido nos últimos tempos a um apreciável número de publicações onde sobressai a vida e obra de Bocage. Entre outras edições, destaquem-se três ou quatro de natureza diversa, a título de exemplo: primeiro, a de uma obra intitulada Fábulas e Contos para Crianças ( Lisboa, Instituto Piaget, 2000 ), antologia contendo textos bocageanos; segunda, a teatralização da vida do poeta, Bocage, Ele Mesmo ( Lisboa, Portugalmundo, 1999 ), na sequência de outras conhecidas dramatizações de tão atribulada existência; terceira, um estudo introdutório, de preocupações didácticas, intitulado Para uma Leitura da Poesia de Bocage ( Lisboa, Presença, 1999 ), do autor desta recensão; por fim, um exercício de reescrita paródia de alguns poemas de Bocage, da autoria do professor brasileiro ( da Universidade de São Paulo ), Francisco Maciel da Silveira, e incluídos em Palimpsestos. Uma História Intertextual da Literatura Portuguesa ( Santiago de Compostela, Edicións Laiovento, 1997, pp. 23-25 ).
Daniel Pires ( n. em 1951 ) é o dinâmico director do Centro de Estudos Bocageanos (CEB), a quem se devem, aliás, outros importantes trabalhos de divulgação da obra do poeta sadino, tais como: a organização e publicação da brochura da Exposição Biobibliográfica comemorativa dos 230 e dos 190 anos do nascimento e da morte de Bocage ( Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal / Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995 ); ou, com Fernando Marcos, a edição de uma pasta com 15 belos postais (sépia), sobre Bocage na Prisão ( Setúbal, CEB, 1999 ). A sua actividade crítica e ensaística tem ainda outros temas de interesse, como se conclui das suas publicações sobre vários autores. Merecedor de destaque está o seu incansável trabalho de um Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa no Século XX ( Lisboa, Grifo ), já com dois volumes publicados (1º vol., 1900-1940; 2º vol., 1º tomo, 1941-1974 ). Ficamos, pois, à espera do seguimento deste importante serviço à cultura portuguesa, no domínio pouco estudado da sua imprensa periódica, bem como de outros trabalhos de divulgação ou de ensaio interpretativo sobre a obra poética do maior pré-romântico português.

Pesquisa de
Assis Machado



publicado por assismachado às 09:39
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Domingo, 5 de Março de 2006
A TRIBUNA DOS POETAS - LOURDES AGAPITO, HUMBERTO DE CASTRO E PERPÉTUA MATIAS
NADA É SEGURO

Por
Maria de Lourdes Agapito

Homenagem a Bocage


Nasceste sempre para amar, Elmano,
voaste p' ra outro mundo são e puro,
tiveste falsos amigos por engano
nada nesta vida é seguro! ...

Foste vítima sem o sentir humano,
nunca pensaste no teu futuro,
sofreste por amor, de ano para ano,
foi um viver cruel e muito duro.

Nasceste sem sorte, mesmo em Macau,
em Lisboa, na Índia tudo foi mau,
foste um homem meão, grande sofredor!

Nasceste há duzentos e quarenta anos,
morrendo com dores, injustiças, desenganos,
mas, o maior sofrimento, foi por amor!...


*

SE CONSEGUIRES

Por
Humberto de Castro


Ignora o que vês à tua volta,
não olhes ou finge que nada vêem
os teus olhos!
Continua o teu caminho
seguro das tuas ideias,
já que as ideias dos outros
não são as tuas!
Se conseguires
- será? -
verás que te vais sentir
muito melhor !


*

DÚVIDA DE UMA CRIANÇA


Por
Perpétua Matias

Dedicado a António Alexandre, 4 anos


Só se for para a Lali,
eu não sei onde ela está!
Há tempos não vem aqui,
não sei porque é que será?

Brincava tanto comigo,
a minha amiga Lali,
chamava-me meu amigo,
agora não mais a vi.

De mim não se despediu,
há muito que não a vejo,
não avisou e partiu
não lhe dei aquele beijo.

Há mais um prato na mesa,
deixa estar, está bem aqui;
ela virá de certeza,
este prato é para a Lali ...

***


publicado por assismachado às 22:13
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UMA PERSPECTIVA BRASILEIRA DE BOCAGE II
BOCAGE E O BRASIL - 2


Em 1800, Bocage traduziu do latim dois livros da autoria de um professor brasileiro, natural da Baía, José Francisco Cardoso: Canto Heróico sobre as Façanhas dos Portugueses na Expedição de Tripoli e Elegia ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros D. Rodrigo de Sousa Coutinho .

Tendo em consideração a sua extrema popularidade, os livros de Bocage foram sendo publicados simultaneamente em Portugal e no Brasil até à independência deste país, registada em 1822.

No dia 15 de Setembro de 1865, José Feliciano de Castilho e Noronha, irmão de António Feliciano de Castilho, residente no Brasil, durante a celebração do centenário do nascimento de Bocage, sugeriu à comunidade brasileira que se fizesse um amplo peditório para

se erigir em Setúbal, uma estátua que perpetuasse o talento e a personalidade do poeta. Dito e feito: em breve se tinham recolhido 8.427.640 réis, quantia que foi depositada na casa Fortinho e Moniz, que, pouco depois, veio a falir. Felizmente, José Feliciano de Castilho e Noronha não tinha ainda depositado uma última verba, no valor de 1.583.000 réis, e o banco devolveu 162.000 réis. Foram estas duas verbas que custearam a estátua inaugurada no dia 21 de Dezembro de 1871, na presença do Marquês de Ávila e Bolama – tristemente célebre por ter proibido as Conferências do Casino nesse mesmo ano –, António Feliciano de Castilho e Eça de Queirós, entre outras personalidades.

Em 1905, o "Retiro Literário Português", sediado no Rio de Janeiro, evocou sentidamente o centenário do falecimento de Bocage, com a publicação de um livro de Luiz Murat, a leitura de poemas de homenagem ao escritor, um concerto e a representação da peça de Gervásio Lobato Condessa Heloísa.

No início do século, foi relevante a actividade laboriosa do escritor brasileiro Olavo Bilac que, em páginas de grande apuro formal, divulgou a personalidade multímoda e plural de Elmano. Na sua opinião, "em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu."

Em 1965, no âmbito das comemorações do bicentenário do nascimento do poeta, foi descerrado na cidade de Setúbal um busto de Olavo Bilac, oferecido pela Academia Brasileira de Letras. Por sua vez, o governo português ofereceu ao Brasil um busto de Bocage, que se encontra na cidade do Rio de Janeiro.

Bocage está amplamente representado no panorama editorial brasileiro. Com efeito, é possível, como o demonstra esta exposição, encontrar actualmente muito mais edições bocageanas no mercado brasileiro do que no português. Livros que contemplam as várias vertentes da sua obra: a poesia erótica, lírica, satírica e epigramática, a tradução e as anedotas que lhe são atribuídas. De realçar ainda uma publicação da Federação Espírita Brasileira – Volta Bocage... – que dá à estampa versos alegadamente compostos pelo poeta no além mundo e transmitidos através de um médium...

Segundo o Professor Artur Anselmo, no nordeste brasileiro existe uma figura mitológica que se formou a partir dos nomes de Camões e de Bocage: Camonge. Um tributo relevante àqueles que são, eventualmente, os dois poetas portugueses mais perto das raízes populares.

Daniel Pires


publicado por assismachado às 22:08
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A TRIBUNA DOS POETAS - JÚLIO ROBERTO E FRASSINO MACHADO
JANELA DO MEU EU

Por
Júlio Roberto

Da janela de minha casa,
eu vejo um rio que lá não está

Olho as naus que vão partir
e sofro por não ir ...

Mas ir para onde ?
Eu sei lá, partir, ir, não ir,
vir, voltar, regressar
e depois partir ...

Tem sido esta a minha vida,
tal como da minha janela...
sempre a ir, sem ir,
sempre a ficar, sem estar

Janela onde me sento
e contemplo o céu e o mar
da minha imaginação...

Vejo-me como um judeu errante,
na terra sem terra,
na pátria sem o sentir

E dá-me vontade de chorar,
sem razão nenhuma,
como se chorar fosse rir...

É assim como partir, sem ir ...


In "Pedaços de Mim"

**

FENIX RENASCIDA

Por
Frassino Machado


Tu és meu sentimento renascido
do fundo da minh’ alma reanimada
que agora se encontra ancorada
à espera de um sinal reconhecido.

Tu és aquela luz inesperada
recebida em meu peito comovido
onde meu coração meio perdido
anseia uma energia renovada.

Minha Euridice d’ alma arrependida
pelo aroma que paira à minha volta
suspeito uma esperança desmedida...

Rasga essa névoa em que estás envolta
para que tu, qual “fenix renascida”,
corras até mim só e sem escolta !


In ODISSEIA DA ALMA


publicado por assismachado às 22:01
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UMA PERSPECTIVA BRASILEIRA DE BOCAGE I - Artigo de DANIEL PIRES ( * )
BOCAGE E O BRASIL - 1

No dia 1 de Abril de 1786, a Gazeta de Lisboa anunciava a nomeação do Guarda Marinha Bocage para a Índia. Assim, aos 20 anos, o jovem poeta partia a bordo da Nau "Nossa Senhora da Vida", depois de receber da Coroa a quantia de 84 mil réis, como nos demonstra António Gedeão, num artigo da revista Ocidente.

Rumou ao Brasil, onde se encontrava o futuro Governador da Índia, Francisco da Cunha e Menezes. Da sua estada naquele país, pouco se conhece, pois não existem fontes escritas credíveis. Sabe-se, porém, que viveu na Rua das Violas, que a sua extrema empatia se revelou exuberantemente e que conviveu com o Governador do Brasil, Luiz de Vasconcellos. Na cidade do Rio de Janeiro, teve certamente uma vida de boémia, como era seu apanágio, amores tropicais que se podem entrever num poema seu escrito na época:

"............................onde murmura
O plácido Janeiro, em cuja areia
Jazia entre delícias a ternura..."

Em 1790, Bocage regressou definitivamente a Portugal, na sequência da sua missão agitada na índia, da sua deserção das forças armadas e das suas peregrinações por Cantão, cidade do sul da China, e por Macau. Remonta a este ano a publicação do seu primeiro livro, uma Elegia à morte de D. Jozé Thomaz de Menezes. No ano seguinte dá à estampa o primeiro Tomo das Rimas e a sua auréola, num meio literário de pouca qualidade, consolidou-se vertiginosamente.

Na década de noventa, Bocage escreveu febrilmente versos lapidares, ora exteriorizando a sua emotividade torrencial ora cingindo-se aos cânones clássicos, sendo a pedra de toque o talento com que cinzelava a realidade em poemas de filigrana depurada. Paralelamente, a sua vida de boémio incorrigível, o convívio quotidiano com os deserdados da fortuna, a insatisfação que manifestava perante o status quo, a sátira contundente aos aspectos mais negativos da sociedade - a hipocrisia, a mediocridade, a vaidade, a repressão generalizada, a corrupção e o obscurantismo -, a ironia corrosiva, a frontalidade e o seu repentismo granjearam-lhe uma ampla popularidade que rapidamente se propagou ao Brasil.

Na "Arcádia Lusitana", a associação de escritores da época, a sua permanência foi efémera: em breve se incompatibilizou com a paz dos cemitérios, com os chás e os bolinhos que a mão omnipotente e férrea de Pina Manique ia generosamente distribuindo, com os versos inócuos que os poetas iam debitando, com o elogio mútuo que era lugar comum. Como corolário desta rotura, nasceram polémicas violentas: Bocage redigia poemas satíricos em que nomeava explicitamente os membros da Arcádia e estes respondiam à letra no Almanak das Musas.

Domingos Caldas, brasileiro famoso pelas modinhas que tangia à viola e ainda pelos seus versos, escreveu uma quadra pouco abonatória para Elmano:

"De todos diz mal
O ímpio Manuel Maria
E se de Deus não disse
Foi porque o não conhecia".

Acusação gravosa esta para a época, que podia significar um processo inquisitorial. Bocage não se fez rogado e respondeu literalmente:

"Dizem que o Caldas glutão
Em Bocage aferra o dente
Ora é forte admiração
Ver um cão morder na gente!"

Os anos passaram ligeiros e o escritor começou a pagar a factura dos "delitos" da juventude. A sua saúde fenecia a olhos vistos. De 1800 a 1805, data da sua morte prematura, fez várias traduções do latim, dada a sua sólida formação clássica, e do francês, beneficiando obviamente do facto do avô e da mãe terem sido de origem francófona.

( Continua )

( * ) - Dr. Daniel Pires : Director do Instituto Bocageano Setubalense




publicado por assismachado às 21:55
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A TRIBUNA DOS POETAS - ANTÓNIO CARVALHO E FÉLIX HELENO
SEDUÇÃO

Por
António Carvalho

Como pagar, amor, tanta ternura,
se por mim teu coração sinto pulsar,
todo este bem, esta loucura;
corpo de mulher a querer amar.

Minha alma espera pela tua
no segredo, na vertigem ou desejo,
dos beijos trocados numa rua,
como execução de sons d' um harpejo.

Que importa ser um mal secreto
se alcançámos na vida um sentir?
Amor, porque tardaste com este afecto?

Porque não vieste muito mais cedo?
Amor não é leviandade, é para exprimir
em corpos abraçados e sem medo!...


*

FUI MAIS UM

Por
Felix Heleno

Fui mais um entre os demais tão persistente,
fui mais um que entre os demais acreditou
nesse sonho que jamais se realizou
no que nesta vida amou perdidamente.

Fui mais um que andou no meio de toda a gente,
sem saber por onde veio por onde andou
e que ao pisar a Terra que o criou
jamais se ralizou plenamente.

Fui mais um que acreditou no transcendente
que parecendo ausente está presente
nessa Cruz aonde a morte foi vencida;

Fui mais um que entre os demais se humanizou
e que só no fim da vida se encontrou
quando viu que há uma cruz em cada vida.


In "Grão de Pó em Sonho Eterno"


publicado por assismachado às 21:43
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Sábado, 4 de Março de 2006
ENTREVISTA BOCAGEANA - Diário de Notícias, 21-12-2005
BOCAGE : 200 ANOS

Entrevistadora : Ana Marques Gastão

Entrevistado : Adelto Gonçalves escritor e professor catedrático brasileiro

Outra visão do poeta em biografia recente 'Bocage, o perfil perdido' dá título a uma nova biografia do poeta (Caminho). O escritor e professor brasileiro Adelto Gonçalves nela faz revelações e faculta vasta documentação:
- A sua biografia BOCAGE, O PERFIL PERDIDO trouxe novidades, uma delas relacionada com o local de nascimento do poeta. Mas há mais dados inéditos...
- Localizei num códice do século XIX da Biblioteca Nacional um apontamento em que se diz que o poema cartas de Olinda e Alzira, que celebra o amor lésbico, é de Voltaire, traduzido por Bocage. Até aqui, esse poema sempre fora atribuído a Bocage, não se tendo encontrado o possível original de Voltaire, mas é uma pista que Florence Nys, da universidade do Minho, já se comprometeu a rastrear. Até porque no poema não há referência a Portugal, o que reforça a suspeita de que seja uma tradução.
- Há ainda descobertas sobre o pai ?
- Sim, a prisão do pai de Bocage na cadeia do Limoeiro, em Lisboa, de 1771 a 1777, por ter sido acusado de, como ouvidor em Beja, ter desviado a arrecadação da décima de 1769. Por causa disso é que a família teve a casa sequestrada pelo Estado como forma de ressarcimento. Na BN , verifiquei que a morada do largo de Santa Maria com a rua das Canas Verdes (actual rua de António Joaquim Granjo) fora comprada em 1693 por Leonardo Lustoff, comerciante que exercera as funções de cônsul da Holanda em Setúbal, falecido em 1701. Leonardo era pai de Clara Francisca, que se casaria em 1720 com o francês Gil l'Hedois du Bocage, que entrou para a armada real de Portugal na década de 1690. O francês estava perto dos 70 e Clara Francisca tinha pouco mais de 20 anos. Tiveram duas filhas uma delas, Mariana Joaquina, seria a mãe do poeta.
- Que contradições conseguiu a sua pesquisa aturada elucidar?
- Como pré-romântico, o poeta foi um rebelde que, muitas vezes, conviveu com o poder, fez versos bajulatórios à rainha e ao príncipe regente, como se exigia na época. Verifiquei num códice da biblioteca-museu da Casa Pia de Lisboa que Bocage ficou preso, a mando de Pina Manique, sob um processo de "reeducação", por mais tempo do que se sabia de 7 de agosto de 1797 até o último dia de 1798, quando recebeu uma esmola do Intendente em roupas, sapatos, chapéu e outros apetrechos.
- Que recolheu da documentação da Inquisição de Lisboa?
- Percebi que a epístola Verdades Duras, de filosofia anti-católica, motivo da prisão do poeta, correu às escondidas entre pessoas que odiavam a monarquia, adeptos das "ideias do século" originárias de França. Havia um movimento subterrâneo de literatos que, entretanto, fazia circular papéis considerados "ímpios e sediciosos".
- Que critérios seguiu no que se refere ao tratamento dos dados biográficos?
- Os da historiografia moderna, ou seja, toda informação se baseia em documento de arquivo devidamente especificado numa nota de rodapé. Com bolsa de pós-doutoramento da fundação para a pesquisa no espaço do Estado de São Paulo (Fapesp), pude ficar um ano em Portugal. Só com muita persistência se faz uma pesquisa séria. Levantei tudo o que me foi possível entre 1999 e 2000, e, depois, ao voltar para o Brasil, levei pouco mais de um ano para escrever a biografia. O livro ultrapassa a morte do biografado e fala dos embates entre Elmanistas, partidários de Bocage, e José Agostinho de Macedo, seu opositor...do último período de vida de Bocage, dei conta das contendas com os censores da real mesa da comissão geral sobre o exame e censura de livros, da sua actuação como tradutor na tipografia do Arco do Cego e dos últimos livros publicados. Reconstituí os últimos dias e fui além da morte, restabelecendo os embates entre os Elmanistas, em especial Pato Moniz e Macedo.
- Bocage viveu a prisão e a censura. Quais os reflexos disso na sua escrita?
- Parece-me que a prisão só serviu para que Bocage adoptasse um comportamento menos agressivo em relação à moral e ao poder, mas, se havia intenção de "reeducá-lo", o processo não obteve êxito; continuou a procurar os amigos maçons. E só não voltou para a cadeia em 1802 porque a força da Inquisição já não era a de antes. Isso deu-se quando uma jovem contou a um padre que havia visto o poeta a conversar sobre assuntos suspeitos.
- O facto de não ser português dá maior isenção à sua biografia?
- É provável. Como pesquisador estrangeiro, procurei fazer uma leitura isenta. Tentei construir a personagem dentro do que os documentos permitiam, até porque quem vem de fora sempre vê melhor do que aqueles que já estão no lugar há tempo. É possível que eu tenha cometido algum erro que um historiador português certamente não faria, mas o ser um investigador de fora conduziu-me à descoberta. Não podemos esquecer que estamos a tratar o século XVIII. Éramos todos portugueses então.
- Que pretendeu com este livro?
- Deixar o leitor diante de um Bocage tal como o conheceram os seus contemporâneos.


publicado por assismachado às 13:25
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