ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Sábado, 10 de Fevereiro de 2007
CRÍTICAS BOCAGEANAS II - ESTHER DE LEMOS

 

                                          BOCAGE VERSUS TRADIÇÃO II


A época de Bocage oferecia-lhe apenas, como formas imediatas de ressonância e de consagração, as vitórias disputadas em outeiros poéticos e em Academias, onde campeava a banalidade fátua dos versejadores da moda; ou, então, proporcionava-lhe os rápidos triunfos de botequim, essas bnoites ardentes em que improvisava de pé, na roda dos admiradores de ocasião. Foram talvez dos mais belos momentos da vida do poeta, que os evocou mais tarde com doloroso prazer:

Respiração divina,
entusiasmo augusto, alma do Vate!

Que rápidos portentos,
portentos em tropel não deste às Fama,
não deste à Natureza,
à Pátria, ao Mundo, a Amor,
na voz de Elmano!
Oh êxtase, oh relâmpagos de glória,
faustos momentos de ouro,
com que meu grado comprei
na Eternidade!

A musa declamatória e verbosa de Elmano reclamava a pronta adesão de um público, Bocage não pôde resistir às solicitações do êxito, mesmo sob as formas menores que se lhe ofereciam. Bateu-se pelas gloríolas de momento com a singela convicção de quem se bate pelo que lhe é devido.
O botequim das Parras, ao Rossio, conhecido na época pelo «Agulheiro dos Sábios», foi o primeiro teatro do seu talento transbordante. A Nova Arcádia deu-lhe depois uma ilusão de dignidade e decoro artístico; mas depressa se cansou da mediocridade e pretensão dos sócios daquela Academia, a que presidia o faceiro poeta Caldas, o mulato tocador de viola, o «neto da rainha Ginja», como impiedosamente o baptizou. Ainda foi com os árcades ao Paço festejar em verso os anos de uma Infanta.
Mas a grandeza inconformista do seu génio rebentou os estreitos quadros da poesia oficial. Saturado de musas postiças, desfechou sobre a Nova Arcádia a trovoada das suas sátiras, e em gestos de arrasante soberba foi-se enchendo de inimigos. Contra um dos mais acesos, José Agostinho de Macedo, escreveu mais tarde Bocage a terrível sátira «Pena de Talião». E uma vez mais, em versos de sonoro orgulho, proclamava a sua grandeza e a profunda originalidade do seu talento, que a lição assídua e a tradução dos clássicos não turvara, e que o lugar comum de sala não pudera derrancar:

Não sou, nem de improviso, o que és de espaço,
claro auditório meu, vingai-me a glória.
Vós que em versos altíssonos mil vezes
me viste ir voando às fontes do Estro,
Dizei se me surgiram Grécia e Roma
nas prontas explosões do entusiasmo!

Este orgulho, que se estribava na consciência de possuir um dom raro e quase divino, tinha, desde cedo, a dignificá-lo o selo do infortúnio, a singularidade de um destino de amarguras.
E as piores das amarguras, aquelas de que fala Camões, e nascem «de erros em que não pode haver perdão / sem ficar na alma a mágoa do pecado».
Os grandes temas da poesia de Bocage – o amor, a morte, a noite, a glória e a miséria do poeta – são, estes sim, já românticos.
Romântica e aguçada, exacerbada consciência de si mesmo, e também e sobretudo a paixão transbordante e quase frenética que anima tantos dos seus versos.
Mas a época em que Bocage viveu, os recursos formais que a arte literária lhe oferecia, o gosto educado pela poética neo-clássica, a pompa fictícia, retórica, da Arcádia, interpuseram muitas vezes entre o leitor moderno e a alma ardente do poeta uma barreira de convenção e artifício.
São muitos, porém, os passos da obra de Bocage em que a força do seu génio sacudiu as galas de convenção que o constrangiam – e se mostrou original, profundo e tão comunicativamente humano, no seu pessimismo nocturno, na sua contrição, na sua entrega ardente ao Amor, ao pecado e à dor, como soberanamente artista na beleza de uma expressão que se torna de repente pura, certeira e nova.
Por esses momentos de ouro, Bocage continua vivo entre nós; e o seu sonho de imortalidade, que a nomeada grosseira caricaturou, realiza-se afinal, na emoção com que escutamos ainda a sua voz ardente. 


                                                     F I M


publicado por assismachado às 18:20
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