ESPAÇO COLECTIVO ARTISTICO E CULTURAL - COORDENADO PELA POETISA AMÉRICA MIRANDA - E ONDE SE INSEREM AS CONTRIBUIÇÕES DE TODOS OS TERTULIANOS, TANTO EM VERSO COMO EM PROSA, COM O OBJECTIVO DE DIVULGAÇÃO E HOMENAGEM AO GRANDE POETA ELMANO SADINO !
Terça-feira, 21 de Novembro de 2006
CAMÕES, GRANDE CAMÕES - « APOLOGIA DO MODELO »


                                  

   «ENSAIO CRÍTICO ANALÓGICO»

                                                               Por 
                                                     Assis Machado

                                                                 ( 6ª )                       (10ª)
                           Camões, grande Camões, quão semelhante ( a )
                           Acho teu fado ao meu, quando os cotejo! ( b )
                           Igual causa nos fez, perdendo o Tejo, ( b )
                          Arrostar co' o sacrílego gigante; ( a )

                          Como tu, junto ao Ganges sussurrante, ( a )
                          Da penúria cruel no horror me vejo; ( b )
                          Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, ( b )
                          Também carpindo estou, saudoso amante. ( a )

                          Ludíbrio, como tu, da Sorte dura ( c )
                          Meu fim demando ao Céu, pela certeza ( d )
                          De que só terei paz na sepultura. ( c )

                          Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!... ( d )
                          Se te imito nos transes da Ventura, ( c )
                          Não te imito nos dons da Natureza. ( d )


                                         Barbosa du Bocage 
                                         In RIMAS
 


                                                                     I

Temos perante nós um dos mais emblemáticos e, provavelmente, um dos mais conhecidos e estudados poemas de Bocage. Esta forma e modelo de poesia é designada em todos os tratados literários universais de “Soneto”.
O Soneto (originariamente o vocábulo significava "pequeno som") é um tipo de poesia de forma fixa, ou seja, utiliza métrica (medida dos versos), esquema de rimas (forma de terminação de cada verso) e a cadência dos vocábulos (ritmo).
É geralmente composto, na sua forma textual, por 14 (catorze) versos, distribuídos por duas quadras e dois tercetos (soneto italiano). Modernamente há mais umas tantas disposições esquemáticas, todavia interessa-nos aqui a forma convencionalmente apelidada de “clássica”, que é o presente caso que nos ocupa.
O Soneto clássico integra versos decassílabos (dez sílabas poéticas) ou dodecassílabos, também chamados de alexandrinos (doze sílabas poéticas).
Também aparece muito sob a forma de 03 (três) quadras e 01 (um) dístico (dois versos). É o clássico soneto inglês ou Shakespeareano.
O esquema mais frequente de rima apresenta-se da seguinte forma: abba – abba – cde – cde. Este é o modelo comum chamado “italiano”.
Quanto às terminações dos versos existem variantes, um pouco ao sabor da inspiração e da sensibilidade estética de cada poeta.
Recordo que, na forma como estão dispostos, chamamos aos versos “a ... a” interpolados; aos versos “bb” emparelhados e aos versos “c,d,c”/ ”d,c,d” cruzados.
Na moderna poética tem-se cultivado o “soneto branco”, isto é, com catorze versos sem rima mas com métrica (versos decassilábicos e alexandrinos).
Relativamente à cadência (ou ritmo) lembramos que as formas mais convencionais, desde os tempos do seu aparecimento, são as que respeitam em cada verso a acentuação na 6ª e 10ª sílabas – versos heróicos – ou nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas – versos sáficos.
Quanto ao nosso caso, vejamos :
a) Estrutura textual : duas quadras (quatro versos cada) e dois tercetos (três versos cada)
b) Forma rimática : a,b,b,a / a,b,b,a / c,d,c / d,c,d //
c) Forma cadencial : 6ª e 10ª sílabas, portanto, versos heróicos.
Chamo apenas a atenção para alguns artifícios/técnicas do poeta – o que poderá ser entendido como virtuosismo rítmico. Refiro-me às “sinalefas” ou às “sinéreses”.

SINALEFA é o nome que se dá ao recurso que o poeta usa para juntar a última vogal de uma palavra com a primeira vogal da palavra seguinte, formando uma só sílaba.
SINÉRESE é o nome que se dá ao recurso que o poeta usa para juntar numa só sílaba, as vogais que, dentro da palavra, gramaticalmente seriam contadas em separado.

A aparente rigidez de seus traços formais possibilitou ao Soneto chegar praticamente incólume até à actualidade. Raras excepções o modificaram para lá das formas originais que lhe deram os seus primeiros cultores: Dante, Petrarca, Sá de Miranda, Camões, Shakespeare e outros grandes clássicos.
Terá sido Francisco Petrarca quem mais contribuiu para a sua difusão pelo Ocidente Europeu.
Houve uma fase de grande desinteresse por esta forma poética. No Século XVIII poucos foram os seus cultivadores na Europa. O nosso Bocage foi uma das raras e brilhantes excepções. Todavia há um grande ressurgimento do Soneto, no Século XIX, por influência dos grandes românticos, parnasianos e simbolistas que dele se serviram com mestria. Chegado até ao Século XX veio a sofrer grande desgaste com o desprezo a que foi votado pelos modernistas – a chamada revolução do verso livre. Mas por mais estranho que pareça e contrariamente a todas as previsões de críticos literários, que lhe entoaram o “fines diae”, até alguns dos mais radicais modernistas e muitos dos actuais pós-modernistas têm contribuído para a sua regeneração e resistência. Temos alguns casos de poetas portugueses que se distinguiram neste nobre estilo. Refiro-me a Florbela Espanca, Teixeira de Pascoaes, Jorge de Sena e até o próprio Fernando Pessoa o praticou com algum sucesso. Nos nossos dias todos sabemos que grassa novamente um enorme vazio no que diz respeito à arte do Soneto. Uns porque não gostam de facto dele e o desprezam, outros porque o desconhecem e outros, ainda, por falsa postura intelectualóide: dizem que não fazem sonetos porque estão fora de moda. Quanto a nós pensamos que o que existe verdadeiramente é um gritante défice de honesto e aturado estudo, já para não falar de engenho – coisa rara nos tempos que correm. 

                                                                II

Bocage versejou de muitas e variadas maneiras mas onde atingiu a sua melhor perfomance foi no Soneto. Célebres poetas e amantes deste mesmo estilo afirmaram ter sido Bocage o melhor de todos em Portugal, incluindo Camões. E foi de facto com o génio lusitano que Bocage competiu. Competiu no sonho, competiu em honesto e aturado estudo e até, por força do destino, na sua estranha forma de vida.
Não obstante a formação humanística de base de cunho neo-clássico, no que diz respeito à sua obra poética, a sua intensa e vincada personalidade, a frequente violência do seu temperamento inconfundível, matizado por uma profunda e indelével sensibilidade, a auto-dramatizada obsessão face ao destino e à morte, denunciaram e anteciparam a era Romântica.
Poderemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a parcela mais genuína da sua obra é aquela que pode ser denominada de pré-romântica. Toda a sua poética demonstra um mundo muito pessoal e subjectivo da paixão amorosa, do sofrimento e da morte, marcas incontornáveis de génios predestinados.
E se ele, como sabemos, muito foi censurado e perseguido deveu-se, em grande parte, ao espírito mesquinho e obscuro da sua época. É que o poeta, com admirável perspicácia e intuição, punha o dedo acusador nas chagas sociais de um país de aristocracia decadente, aliada a um clero de corrupta índole.
Comprometidas ambas as classes com uma política interna e externa anacrónica para aquele momento restava aos cidadãos de boa fé uma vivência passiva e inócua e aos poetas e artistas uma resistência a toda a prova.
Também, descobre-se ali presente a exaltação do amor físico o qual, inspirado no modelo natural, e nas virtualidades do quotidiano citadino, afasta para longe todo o platonismo fictício de uma sociedade que via pecado e imoralidade em tudo o que não fosse convenientemente disfarçado. 

                                                                    III

E que diremos, então, nós sobre a presente comparação que Bocage faz neste Soneto “Camões, grande Camões...”, pondo-se em destaque com o seu modelo preferido?
Talvez o que Bocage admirasse realmente em Camões fosse o lado "romântico", num sentido amplo da palavra, da sua vida, do seu "fado", e o seu temperamento individualista e inconformista, no que sentia alguma semelhança consigo próprio: ambos incompreendidos, votados ao esquecimento, marginais perseguidos pela sociedade:

                                         Camões, grande Camões, quão semelhante 
                                         Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Começarei, primeiramente, por destacar uma identidade e personalidade sui generis , obviamente genuína, que o coloca objectivamente passível de comparação.
Enquanto o romantismo de Camões foi subordinado pelo domínio da razão, que o classicismo maneirista impunha, Bocage – o poeta do Amor e da Liberdade – consegue sacudir as razões da razão e, embora diversificado na forma, dá livre curso ao potencial emotivo que o seu Eu possuía.
Analisando, mesmo ao de leve, o Soneto em epígrafe, direi que poderemos destacar, por exemplo, o tema. O tema é o descontentamento por se igualar a Camões apenas na infelicidade.
Mais direi que se destacam duas partes lógicas, o estado psicológico do poeta , a análise estilistica e quais os aspectos da sua vida que Bocage considera serem comparáveis aos da vida de Camões:
a) A 1ª Parte (versos 1 a 11) - O sujeito poético faz uma enumeração dos aspectos semelhantes com Camões;
b) 2ª parte (versos 12 e 14) - inesperadamente, dá conta do desgosto que sente por apenas se assemelhar ao génio nas desgraças.
O “estado psicológico” do sujeito poético sobressai pela constatação que várias semelhanças fazem sentir, ao sujeito poético, um certo conforto, na medida em que considera que alguém tão célebre e digno de mérito ("grande Camões”) teve uma existência e passos da sua vida idênticos aos seus, afirmando mesmo que Camões foi um modelo para si (v. 12).
0 sofrimento, causado pela sua vida de infortúnio, dor e desgraça é atenuado pelas semelhanças detectadas com Camões (embora deseje pôr fim a tanta infelicidade - vv. 10-11), pois é apenas no último terceto que o sujeito lírico realça o sentimento de tristeza ao dar-se conta de que o destino apenas o fez parecer-se com Camões nos aspectos negativos (vv. 12-13), não naquilo que Camões teve de grandioso, de extraordinário - o dom para a poesia (escrita). No verso 12, a exclamação completando o sentido da interjeição “Oh” confere um tom de desânimo, frustração às palavras que a seguir são proferidas.
Em poesia a expressão configura a forma, o ritmo, a sonoridade, o emprego das imagens ou das metáforas, a escolha das palavras ou das frases. É claro que o estilo também condiciona a forma, na medida em que lhe coloca marcas entre as quais o poema se vai desenvolver (isto é mais significativo no caso do Soneto).
Reparemos agora noutras particularidades:
Recursos estilísticos: a conjunção “Mas"; a apóstrofe; a repetição, o uso anteposto do adjectivo '”grande"; a metáfora (v. 4); a adjectivação expressiva (v. 5); o trocadilho (v. 7); o paralelismo antitético. Justificados pela maior expressividade dos versos requerida obviamente pelo poeta.
Aspectos semelhantes entre Bocage (motivo romântico: centralização na identidade do Eu) e Camões:
                                                         - o mesmo fado;
                                                         - a partida de Lisboa provocada por motivos semelhantes;
                                                         - o encontro com o Adamastor;
                                                         - a estada e a miséria na Índia;
                                                         - as saudades da amada; 
                                                         - o ludíbrio da sorte.

Bocage afirma-se um seguidor de Camões: imitou-o na vida, entre Lisboa e a Índia, mas não conseguiu imitá-lo na capacidade de poetar. Crê-se marcado por um destino semelhante, que o levou para longe da Pátria, a saudade e a desventura; com Camões parece ter aprendido a arte do Soneto e, talvez, algumas atitudes mais conotadas com a sua personalidade.
Competindo, assim, com Camões ('Camões, grande Camões, quão semelhante / Acho teu fado ao meu, quando os cotejo') Bocage conseguiu ser um dos maiores poetas da Literatura Portuguesa, trazendo a poesia lírica para o plano terreno, quotidiano e burguês. De pés cravados no solo, agitava-o uma “doença cultural” que principiava a contagiar os espíritos mais sedentos de novos caminhos: a ânsia metafísica. Com efeito, sendo um sequioso de metafísica, sentiu-se impossibilitado de superar o fascínio que em sua imaginação e sensibilidade exerciam os estímulos da vida terrena. Por outro lado, Camões deambulava em esferas metafísicas, incapaz de ajustar-se ao mundo contingente; todavia, mesmo quando se sentia 'bicho da terra, vil e pequeno', a sua visão permanecia transcendental. Assim a poesia de Bocage irrompendo das vísceras, do sangue, dos ossos, entranha-se em sentimentos menores que procuram ardorosamente escapar de seu círculo de fogo e ascender para as regiões etéreas. Resumindo, para Camões a terra significava a dimensão do existir, ou do não-ser: para Bocage, seu terreno próprio e definitivo... Para o luso Príncipe dos Poetas, os espaços sobrenaturais constituíam a morada do ser, enquanto para o Vate Sadino se afiguravam o símbolo perfeito do inatingível.
Quando Bocage morreu, o solo já estava preparado para o advento das verdades novas trazidas pelo Romantismo. Se o seu ensinamento não foi imediatamente aproveitado, se a sua obra não foi de pronto erguida ao plano em que se encontra hoje – para gáudio dos seus imensos simpatizantes, como nós – é porque a sua língua destemperada tinha feito das suas. 


                                                               F I M



publicado por assismachado às 19:05
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

TERTULIANOS LAUREADOS - M...

A TERTÚLIA NO FACEBOOK

POEMAS DE GOETHE

O SÉCULO DE BOCAGE

POETAS DO FUTURO

OS AMIGOS DE ITÁLIA

TERTÚLIA ANUAL DE HOMENAG...

COLABORAÇÃO POÉTICA

TRIBUNA DOS TERTULIANOS

LUGAR À PROSA LÍRICA

arquivos

Setembro 2012

Maio 2012

Setembro 2011

Agosto 2011

Dezembro 2009

Setembro 2009

Julho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds